Conto: Chuvas de março

A chuva sempre esteve lá, testemunhando cada momento.

Desde o início. Desde o primeiro dia em que eu a vi.
Desde o fim de fevereiro a chuva não dava descanso pra ninguém. Peguei meu carro naquela segunda feira, início de março, em direção ao meu novo emprego temporário.
 
[…]
– Você pode me deixar perto do Maracanã? É melhor pra mim.
– Hum… É que eu moro na Tijuca, ali perto do shopping… vai ficar meio difícil pra mim.
– Pode ser ali perto do Colégio Militar, então? – disse ela, hesitante.
Eu suspirei.
– Pode ser.
Já estava me arrependendo de ter oferecido carona. Ia ter que dar uma volta imensa, e só conseguia pensar na montanha de coisas que me esperavam em casa, no meu computador. Aliás, eu não entendo como eu conseguia dar conta de tantos freelas naquela época, e não sei se a quantidade de estresse que eles me davam compensava o dinheiro extra no fim do mês. E aquela garota estranha que evitava me olhar nos olhos continuava ali lado, olhando fixamente pro outro lado, pra qualquer coisa passando pela rua, mas incapaz de sustentar uma conversa comigo. Sério, qual era o problema dela?
– Estou cansada. – ela disse de repente, e eu me sobressaltei. O tom de voz dela era como um pedido de desculpas, como se ela estivesse lendo os meus pensamentos.
– Que horas você costuma chegar em casa?
– Ah, depois que eu pegar outro ônibus vai levar umas boas duas horas.
– Tudo isso?
– Sim. Muito engarrafamento.
– Entendo.
Mais silêncio. Ela me incomodava absurdamente.
Quando eu encostei na calçada do Colégio Militar ela desceu muito rápido, abriu o guarda-chuva e olhou nos meus olhos por um tempo que pareceu longo demais. Mas logo em seguida desviou bruscamente. E, ao invés de agradecer, ela apenas disse:
– Desculpa.
E, dando um meio sorriso triste, bateu a porta do carro e atravessou a rua.
Eu me senti mal pela raiva de antes. E pensei nela enquanto dirigia de volta pra casa.
Pensei nela enquanto ligava o computador e parei de pensar quando mergulhei no trabalho.
Mas voltei a pensar nela quando deitei na minha cama umas duas horas depois.
“Ela deve estar indo dormir a essa hora, também.” – eu pensei.
            Que garota estranha.
[…]
Nada mais podia dar errado. Eu estava dirigindo a esmo, não sabia pra onde ir. Esperava por lágrimas que não vinham, e olhava com raiva para o pára-brisa que não dava conta de tanta chuva.
Foi quando a vi. Parada na calçada, encharcada. Nunca pensei que a veria de novo. Aquela garota estranha, que tinha sumido da minha vida tão rápido quanto apareceu.
Não pensei duas vezes: parei e abri a porta do carona.
– Entra aí! – eu gritei.
Ela demorou um pouco a me reconhecer. Veio correndo, entrou e bateu a porta com força. Então abaixou o rosto, tapando-o com as mãos. Eu não sei se ela estava chorando ou não. Só sei que de repente eu me esqueci de tudo e fiquei olhando pra ela. Esqueci que estávamos no meio de uma rua deserta e que estava muito tarde. Esqueci todas as merdas que fizeram com que meu dia tivesse sido tão miserável. Um pensamento completamente irracional passou pela minha cabeça nesse momento: que eu queria que ela olhasse pra mim, que olhasse nos meus olhos. Fiz menção de tocá-la, mas por algum motivo não consegui.
– Pra onde você está indo? – eu perguntei.
– Pra lugar nenhum. – ela disse, sem levantar a cabeça.
Ela então levantou devagar, e olhou para o vidro.
Eu comecei a dirigir, sem rumo. Também não estava indo pra lugar nenhum, mesmo.
Dei voltas e voltas até chegar à Tijuca de novo. Tudo o que girava na minha cabeça antes simplesmente sumiu e tudo o que restou foi a consciência da presença dela ao meu lado. O silêncio continuava cortante, como um abismo, me fazendo lembrar porque ela me incomodava tanto. Era como se alguém presenciasse minha solidão, e não fosse sequer capaz de encará-la.
– Você pode me deixar ali naquela esquina? – ela pediu. A voz estava embargada e baixa.
Eu não disse nada. Apenas parei aonde ela pediu e ela finalmente olhou pra mim. Olhos tão castanhos e comuns, mas que pareciam dizer um monte de palavras atropeladas. E que de repente me fizeram ficar desesperado por não conseguir entender o que queriam dizer. Ela mordeu de leve os lábios e abaixou a cabeça por um momento, hesitante.
– Desculpa. É que os seus olhos são tão verdes que eu tenho medo de me afogar neles.
Eu estendi minha mão direita e afastei a mecha de cabelo molhado que havia em seu rosto. A bochecha dela estava corada e fria. Ela agora olhava fixamente nos meus olhos de novo, como se estivesse de fato mergulhando neles. Tocou de leve meu rosto com aquela mão gelada e me beijou, tão apaixonadamente como nenhuma outra garota havia me beijado antes. Era como se só existisse aquilo. Só nós dois. Como se o nosso universo fosse aquele carro; com o mundo inteiro escorrendo pelos vidros e as minhas mãos puxando a nuca dela pra mais perto. Como se todos os problemas do lado de fora simplesmente não existissem mais.
Mas aquele mundo novo existiu apenas por alguns segundos. Os lábios dela se separaram bruscamente dos meus, e ela não olhou mais nos meus olhos. Segurou a bolsa que tinha no colo e saiu rápido do carro, pra fora daquele universo. O ônibus que ela ia pegar vinha vindo e eu observei enquanto ela subia.
Tudo e nada passava pela minha cabeça. Tudo girava, enquanto as luzes do ônibus que se afastava tremiam através da água escorrendo no pára-brisa.
Uma coisa era certa: ela tinha entrado na minha vida pra balançar tudo. Pra sacudir e deixar uma bagunça que eu nunca mais seria capaz de arrumar.
[…]
Tudo o que ela fazia era me dar perguntas, nunca respostas. Mas quando ela olhava nos meus olhos, as respostas pareciam estar todas ali. Nada mais importava.
É claro que eu a amava.
[…]
Quando eu comecei a perder as esperanças na polícia, eles a acharam. Um mês depois.
Eu fui correndo buscá-la, assim que desliguei o telefone.
Chegando ao hospital, me levaram ao pátio, onde ela estava sentada em um banco de pedra, olhando pra cima, para as nuvens. Eu ajoelhei na frente dela, segurei suas mãos na minha e ela me olhou.
Seus olhos já não tinham o mesmo brilho, e me fitavam como se fosse a primeira vez.Eles já não me invadiam da mesma forma. Não havia profundidade. Não havia reconhecimento. O semblante calmo não me dizia milhões de palavras de afeto ao mesmo tempo, como antes. Era apenas um olhar raso, apenas uma indiferença gentil.
Eu queria abraçá-la, queria muito envolvê-la nos meus braços, mas eu me segurei, com medo de assustá-la. Além da indiferença havia um pouco de dúvida em seus olhos castanhos. Senti suas mãos apertando um pouco a camisola curta de hospital.
Eu não sabia o que dizer. Tinha medo de abrir a boca e começar a dizer descontroladamente que a amava. Queria pedir, por favor, que se lembrasse de mim. Que se lembrasse da Meg. Que voltasse pra casa, que voltasse pra sua filha. Que voltasse pra mim e fosse só minha de novo. Mas nesse momento ela parecia pertencer somente ao próprio mundo. Presa numa grade cujas chaves já não podiam mais ser encontradas.
– Seus olhos são tão verdes. – ela disse. – Eu acho que poderia me afogar neles.
Então ela sorriu. E eu já não podia me conter. Encostei a cabeça em seu colo e comecei a chorar. Logo eu estava soluçando, e foi uma surpresa sentir sua mão quente levantando meu queixo. Ela tocou meu rosto de leve, tentando enxugar as lágrimas.
– Não chore. Você pode se afogar em si mesmo.
Segurei as mãos dela e disse.
– Então não me solte. Não me deixe morrer afogado.
Ela assentiu com a cabeça, séria. E até chegarmos ao carro, não soltou a minha mão nem por um segundo.
 (Conto aleatório e incompleto, de minha autoria.)
“É muito triste pensar
Que nós nos conhecemos apenas para nos machucarmos
Mas se eu nasci para te encontrar
Eu devo ser capaz de consertar tudo isso.”
(I for you – Luna Sea)
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