Mais uma história inacabada

2019
Carlos tinha 18 anos quando tudo começou. Flashes. Pareciam sonhos que vinham quando ele estava acordado. O primeiro foi na fila de um Mac Donald’s. Num instante olhava para a entediada funcionária que chamava o próximo da fila e dois segundos depois um turbilhão de lembranças de coisas que nunca haviam acontecido invadiram sua mente.
Um tombo de bicicleta que gerou um corte profundo na coxa esquerda.
Uma festa de graduação, pessoas felizes com seus diplomas em rolinhos.
Um pai sério e reservado, uma mãe exigente que, pelo menos desta vez olhava para ele com orgulho e não com reprovação. Pais cheios de defeitos, mas que ele amava. Como isso podia acontecer? Aqueles não eram seus pais.
“Sim, eles eram”.
Claro que não eram! O seu pai tinha morrido de câncer quando ele era um bebê, e a sua mãe era a pessoa mais doce e carinhosa deste mundo. Ele sabia muito bem quem eram seus pais.
Então da onde vinham aquelas lembranças?
Lembranças que diziam: Seu nome é Maurício Paiva, você tem uma esposa linda chamada Gabriele e uma filha de três anos. Não se lembra que hoje mesmo você deu um beijo na testa dela antes de ir para a Universidade? Não lembra que se preocupou em falar com ela mesmo estando atrasado para aplicar uma prova de SQL?
“Não, o meu nome é Carlos Padilha. Eu sou um estudante de literatura. Eu não sei SQL. Não sei programar esses bancos de dados, não sei mexer no Acess nem diagramar tuplas e nem definir os parâmetros e… Deus.”
Ele nunca havia ouvido falar em SQL antes. Mas agora estava tudo ali.
“Não, eu devo ter caído e não me lembro. Eu devo ter batido a cabeça, é isso. Eu lembro que aconteceu o mesmo com Gabriele naquela viagem e…”
Gabriele. Tudo vinha mais rápido agora, o primeiro beijo, a lua de mel, as brigas que quase levaram a um divórcio, a gravidez inesperada que fez com que o casamento se mantivesse… o nascimento de Vitória. As lembranças vinham junto com as lágrimas. Carlos estava ajoelhado no chão do Mac Donald’s, enquanto a funcionária, antes indiferente agora se afobava tentando afastar as pessoas e ajudar Carlos. Ele chorava e soluçava. Ele sofria. Ele lembrava.
Havia beijado Vitória na testa. Era uma quinta-feira. Pegou seu carro novinho em folha, que havia comprado há duas semanas, um Golf 2001. Apressou-se, pois seus alunos com certeza já estavam roendo a unha de nervosismo. Ouviu o som de mensagem de texto no celular e foi dar uma olhada, o que o impediu de ver que o semáforo ficava amarelo. O que o impediu de ver um caminhão frigorífico que vinha do outro lado. Ele sentiu seu corpo se projetar pra frente, sentiu a força do cinto no abdômen e pode ver por um segundo os estilhaços do vidro que se imprensavam contra o seu corpo, enquanto tudo girava e ficava escuro. Gabriele. Vitória. Oh, Deus, me desculpem.
– Saiam da frente! Saiam da frente AGORA! – um funcionário do Mac Donald’s tentava puxar Carlos pelo braço, enquanto ele se debatia em soluços.
Minutos depois estava sendo levado por uma ambulância, inconsciente.
[…]
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Esse é o tipo de coisa que aparece quando se fuça arquivos antigos e empoeirados do computador. Esse trecho é de mais uma das minhas histórias inacabadas, e a segunda da minha lista de “Essa eu preciso terminar.” Muito do enredo já está definido na minha cabeça e eu preciso parar para dar uma forma a ele… mas tempo, cadê?
E podem deixar, eu não esqueci que estou devendo a continuação do último post… Já vai, já vai! XD
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