Eternos Clássicos #1 – E o vento levou…

“We will always have Paris” – esta era a única coisa que eu sabia sobre “Casablanca”, sua frase mais marcante, apesar de não fazer ideia do contexto no qual ela se inseria. Assim acontece com muitos dos clássicos que ouvimos tanto falar, sem nem saber do que se tratam. Por exemplo, se eu falar em “Dançando na chuva” para alguém que nunca viu o filme, com certeza esta pessoa evocará em sua mente a clássica cena de seu personagem principal segurando-se num poste, encharcado, brincando com o guarda-chuva e cantando. Se eu falar em “Psicose”, uma música de suspense, uma mulher no banheiro e um vulto com uma faca serão as imagens instantaneamente lembradas.

Esses momentos, apesar de marcantes no cinema, são apenas parte de um todo que com certeza vale a pena ser visto. Mas por que, diabos, ninguém me avisou isso antes? Eu confesso que tenho perdido a vontade de ver filmes atuais conforme vou me apaixonando pelos rudemente chamados “filmes velhos”. Felizmente, eu aprendi a não subestimar os clássicos, e gostaria de, através dessa nova série de posts intitulada “Eternos Clássicos”, convidar você, caro leitor, a dar uma chance a essas maravilhosas e imortais obras do cinema.

Esses dias eu assisti “E o vento levou” (Gone with the wind, 1939), e o vento me levou a começar com ele essa série de posts (trocadilho infeliz, eu sei). Estava relutante para vê-lo, por ser um filme com quase 4 horas de duração. Resolvi que veria um pedaço e deixaria pra ver o resto depois, mas, uma vez que eu comecei, não consegui parar! Amei tanto a história e os personagens que a necessidade de ver até o final venceu o meu sono. Na verdade, eu gamei mesmo numa personagem em especial: a divíssima Scarlett O’Hara, interpretada pela atriz Vivien Leigh.
Todos que se aventuram pelo maravilhoso mundo cinematográfico de meados do século XX acabam inevitavelmente se apaixonando pela Audrey Hepburn, mas “E o vento levou…” abalou o amor que eu nutri por ela em “Bonequinha de Luxo”. Se a doce e esquiva Holly é uma gata, então Scarlett é uma leoa, indomável e fascinante.

O filme começa nos mostrando o sul dos Estados Unidos e o agradável modo de vida sulista logo antes da Guerra Civil Americana. Tudo eram flores e todos viviam como numa terra de sonhos, onde os homens idealizavam até mesmo a própria guerra (vemos isso quando a guerra estoura e todo mundo comemora, correndo para se alistar). Scarlett é uma belíssima jovem, cobiçada por praticamente todos os homens da região, mas fica desolada ao descobrir que o homem que ela ama vai se casar com outra. Ao longo do filme, enquanto todo o sonho de vitória vai se tornando pesadelo em meio aos horrores da guerra e à violenta investida dos ianques, vemos uma Scarlett mimada e fútil ser forçada a se tornar uma mulher forte e capaz de sobreviver em meio a isso tudo.

Na verdade, dá pra ver que desde o começo Scarlett é uma garota de fibra e personalidade forte, mas sua imaturidade a leva a tomar decisões completamente impulsivas, como se casar só pra fazer ciúme em Ashley (Leslie Howard), quando este se casa com Melanie (Olivia de Havilland). Scarlett está longe de ser a típica mocinha frágil e boazinha; apesar muitas vezes pedir ajuda, no fim ela é quem tem que se virar e ainda carregar os outros nas costas. Mesmo viúva, com a mãe morta, o pai louco e ainda tendo que cuidar das irmãs e da esposa doente do homem que ama, Scarlett precisar juntar todas as suas forças para se reerguer da miséria e da derrota do fim da guerra.
 
Apesar de grande o filme fez bom uso do seu tempo ao ilustrar não só a ascensão dessa magnífica personagem, que aprende a tirar forças de todas as injúrias que a vida lhe causou, como também ao mostrar a decadência de Scarlett ao se deixar levar pela ambição e se deixar dominar por suas obsessões. Ela parte de uma adolescente mimada, passando por uma mulher cheia de garra e coragem e terminando como uma pessoa amargurada, fria e cheia de sentimentos reprimidos. A teimosia faz isso com Scarlett, que acaba percebendo, talvez tarde demais, que aquilo que tanto queria e buscava era apenas uma ilusão.
 
Percebe que vinha desprezando o homem que sempre fez tudo por ela e que ela já amava, sem se dar conta disso, por estar cega pelos sentimentos sem esperança que nutria por Ashley.
O excesso de defeitos de Scarlett e suas atitudes um tanto quanto reprováveis normalmente nos fariam não gostar dela. Afinal, ela não é nem de longe uma heroína. Ela é egoísta ao extremo e não mede meios para conseguir o que quer. Mas assim como Rhett (Clark Gable), personagem que desde o começo vê que Scarlett tem potencial para se tornar uma mulher e tanto, nós acabamos fascinados e, por que não, até mesmo apaixonados por ela. Ficamos frustrados com seus erros e teimosias da mesma forma que nos frustramos com nossos próprios defeitos, e desejamos, torcemos, que ela vença e esqueça tudo isso que ela própria sabe que precisa vencer e esquecer.

“Frankly, my dear, I don’t give a damn.”
Serei clichê, mas direi que “E o vento levou” é uma obra prima, o tipo de filme que merece inteiramente ser chamado do clássico. Serão 4 horas tão bem gastas que você não vai se incomodar de perder mais 4 horas revendo ao ouvir as palavras de Rhett, que se imortalizaram junto com o filme: “Francamente, minha querida, eu não dou a mínima”.
Anúncios

Um comentário em “Eternos Clássicos #1 – E o vento levou…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s