Conto: Em busca de um sentido

” […]
– Então você nunca parou para pensar que talvez nada disso valha a pena? – disse Roger, levando um grande gole de cerveja à boca.
– Valha a pena para quem? Para você? – rebateu calmamente o outro homem. Seus olhos muito verdes brilhavam sob as pálpebras que já começavam a não obedecer. Seu nome era Simon, e neste momento estava mais preocupado em lembrar se esta era sua nona ou décima caneca do que em prestar atenção nas indagações do velho Roger.
– Se vale a pena para todos! Ora bolas! Se pensar bem, não vale a pena nem questionar se realmente vale ou não. Porque se não vale a pena, vale menos ainda pensar se vale. Não é? – Roger soltou um arroto que não só tirou toda a solenidade do que acabara de falar com intensidade religiosa, como também fez com que a garçonete loira que enxugava um copo atrás do balcão desejasse não ter parado para prestar atenção na conversa dos dois amigos. Enquanto Simon já puxava uma sacolinha de couro do bolso, contando quantas moedas de ouro lhe restavam.
– Mas e se valer? Se for assim, também vale questionar se vale. Afinal, uma vez entendendo que vale a pena pode-se ter certeza de continuar.
– Se, se, se… Não me venha com essa! Se “se’s” valessem a pena e certezas existissem, em primeiro lugar, não beberíamos como porcos para fugir das nossas vidas miseráveis.
– Pelo contrário, meu amigo. Bebemos justamente para que os “se’s” se tornem mais reais. Há dez canecas atrás a vida com certeza não era tão colorida quanto me parece agora. Nem meus objetivos tão próximos.
– Nada disso vale a pena. – disse Roger, sem a mesma ênfase de antes, como que se resignando pouco a pouco aos argumentos de Simon. A embriaguez pintava-lhe o semblante de melancolia; para ele a vida não parecia nem um pouco colorida. Suspirou. – Nada vale.
– Para mim vale estar aqui com você, meu amigo. Mas sabe que não posso mais voltar atrás.
– Tem certeza que é o que quer fazer, Simon, meu chapa?
– É o que eu preciso fazer. E não há álcool que me convença do contrário, se é o que pretendia ao me trazer para este bar.
Roger levantou de súbito, dando um soco no balcão e assustando os poucos que ainda estavam no bar. Um homem velho de grandes bigodes, talvez brancos se não estivessem tão sujos quanto seu avental, começava a virar as cadeiras em cima das mesas. Olhou feio para Roger, que parecia ter recuperado a vivacidade.
– Eu queria me despedir, diabos! – Gritou, enquanto Simon permanecia com a mesma calma gentil de sempre.
– Mas pensou em me fazer ficar, não foi? Diga que eu estou errado.
Mas Roger não podia dizer. Por mais óbvio que fosse, relutava em admitir o quanto queria que Simon ficasse, que esquecesse aquela ideia maluca, que parasse de querer respostas para tudo. Quem afinal inventou esses malditos “porque’s”?
– Você é louco. – disse, virando lentamente o restinho de cerveja da caneca e incapaz de conter seu desapontamento. – Louco de pedra. Mas não, não está errado.
– Você vai ficar bem sem mim, não se preocupe. – disse Simon, apoiando no ombro do amigo para levantar. – Mas se tem algo que não vale a pena, é viver com arrependimentos.
– Os “se’s” nos acalmam… às vezes, essa é a verdade. Mas não podemos ser escravos deles, Simon. Não podemos. – Roger parecia estar falando para si mesmo agora, olhos fixos em algo invisível do outro lado do bar. – Não podemos…
– Vamos, levante-se, Roger. – disse Simon. – você já bebeu demais.
Simon pagou suas cervejas e as do amigo à garçonete loira e partiu com Roger apoiado em seus ombros. A noite estava quente e as fracas luzes alaranjadas das ruelas estreitas de Clevertown dançavam diante de sua vista turva. Tremiam e se transformavam em formas, linhas e cordas. “Tenho uma corda no pescoço” – pensava – “mas não posso cair do banco. Não ainda.” E continuou caminhando enquanto as luzes zombavam dele e de sua escolha. Valeria mesmo a pena?”
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Esse é um trecho de mais uma das histórias que eu começo e nunca termino. Essa em especial foi surgindo do nada, inspirada nas minhas últimas aulas de Metodologia de Pesquisa, do meu recente interesse por Filosofia e da pura necessidade de escrever. O Simon e o Roger foram se formando na minha imaginação conforme eu os criava, e nem eu mesma sei ainda o que o Simon tanto busca. Quem sabe nós vamos descobrir juntos?
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2 comentários em “Conto: Em busca de um sentido

  1. Quando comecei a ler, achei interessante. Depois fui completamente absorvido pela conversa e, como acontece apenas com os bons contos, me fez parar tudo e pensar sobre mim, refletir sobre passagens em comum entre o conto e minha própria vida. Pensei várias coisas que valeram a pena, coisas que não valeram, e coisas que teriam valido se eu tivesse feito-as valer. E, se isso fosse um livro, ou uma "passagem-teaser" para fazer possíveis leitores comprarem, eu teria comprado, mas não para ajudar minha grande amiga autora, e sim porque houve uma sinergia entre mim e o conto.Pra que esse texto enorme? Em resumo, pra dizer que eu gostei e MUITO do texto.Aplaudo (e te abraço lol) de pé

  2. Linda, você realmente tá melhorando bastante a forma como escreve. To gostando de ver.Bem interessante seu conto, fácil se identificar com ele.Pensando em continuar ou vai deixar ele solto assim mesmo?

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