Conto: Azul

Todos sabem que Verdades são verdes e Mentiras são vermelhas.

A menina sabia. Sabia também que queria uma Verdade. Queria muito.

A Vida também sabia o que ela queria. Por isso levou-a àquela porta. Àquele comprido corredor.

A menina estava ansiosa. Espichava o pescoço por cima da Vida, que girava lentamente a maçaneta.

Então ela acendeu a luz, e os olhos da menina brilharam.

O corredor se estendia a perder de vista. Apesar de estreito, tinha tetos altos e muitas, muitas prateleiras. Algumas rentes ao chão, outras tão altas que mal se conseguia ver o topo. Eram tantas coisas que mal se pode descrevê-las. Mil cores, formas, cheiros e texturas, e tudo brilhava.

– Bonito, não é? – disse a Vida, com seu sorriso divertido de sempre no rosto, achando graça no deslumbre da menina.

– Lindo demais! – exclamou ela, mal contendo sua excitação. – O que são todas essas coisas?

– São escolhas. Mas o que você procura não está aqui.

– Então onde eu encontro a Verdade?

– Você vai ter que ir um pouco mais afundo, querida. Tem alguém lá atrás que pode te ajudar.

A menina agradeceu e se adiantou. Estava com pressa, queria logo achar a Verdade. A Vida apenas observou-a indo, dessa vez com um sorriso mais sereno, e um olhar de quem já vira aquela cena incontáveis vezes.

A passos largos a menina chegou a uma outra porta. Bateu, receosa, e abriu ao ouvir uma voz rouca e gentil dizendo: “Entre”.

Estava um pouco escuro, e havia um senhor muito velho, sentado num banco em frente a uma grande gaiola. Ele parecia estar alimentando os pássaros, e sua voz suave encheu o aposento novamente:

– Não tenha vergonha, pode entrar. – disse ele gentilmente.

– Quem é o senhor?

– Eu sou o Destino. E sei o que você procura.

– Eu quero uma Verdade. Mas tudo o que sei é que elas são verdes.

– Sim, costumavam ser. E as Mentiras vermelhas. Mas um dia algo aconteceu…

– O quê? – ela ficou apreensiva.

– Bem, você sabe… – falava ele com calma, enquanto se levantava – as pessoas nem sempre ficam satisfeitas comigo. Ou com as Verdades. Um dia eu simplesmente me cansei disso. Mas acho melhor que você veja com os próprios olhos.

Então ele acendeu uma luz. E ela pôde ver que a gaiola era bem maior do que imaginava, e dentro dela os pássaros voaram de um lado pro outro assim que o quarto se iluminou. Milhares de pássaros azuis.

– Tenho muitas Verdades aí. – disse o velho. – E muitas Mentiras. Um dia resolvi pintar todas de azul. É uma bela cor.

A menina ouvia, mas ao mesmo tempo não. Era um sentimento contraditório de desapontamento e ao mesmo tempo surpresa, pois os pássaros eram todos tão lindos!

– E como vou saber qual é Verdade e qual é Mentira?

– Há um modo de saber.

– Como? – ela de repente se animou. – Me diga, por favor!

– Ora, é fácil… – Ele voltou ao seu banco. – Você só precisa cortar um deles ao meio. Se for Verde por dentro, é uma Verdade. Se for Vermelho, é uma Mentira.

– Mas eu não quero matar nenhuma delas! – a menina estava prestes a chorar. Se aproximou da grade, observando os pássaros azuis com lágrimas nos olhos e sussurrando pra si mesma: “O que eu faço? Eu quero uma Verdade.”

O velho Destino suspirou. Aproximou-se da menina e apoiou as mãos em seu ombro.

– Apenas escolha um pássaro. Alimente-o e cuide bem dele para que ele viva muitos anos. Um dia, quando ele estiver cansado demais para voar ou sequer manter os olhos abertos, e finalmente morrer, você poderá cortá-lo e ver se era ou não uma Verdade.

Ela manteve seus olhos úmidos fixos na gaiola, enquanto o velho falava. Um dos pássaros pousou perto dela, e fitava-a com seus grandes olhos, também azuis. E nesse momento algo dentro dela lhe deu a certeza de que esta era uma Verdade.

– Eu quero esse. – ela disse. O velho sorriu, e pegou com extremo carinho o pássaro na gaiola.

– Cuide bem dele, este é especial.

E ela saiu de lá satisfeita, certa de que, no fim das contas, tinha achado o que procurava.

Muitos tempo se passou, e a menina virou uma mulher. Ela passou muitas vezes pelo corredor das escolhas, e ao longo dos anos colheu coisas cada vez mais altas.

O pássaro azul estava sempre junto dela, sua linda Verdade pintada de azul. E ela foi feliz ao longo desses anos.

Mas as pessoas envelhecem, assim como os pássaros. As rugas já começavam a aparecer no rosto desta mulher quando sua Verdade, seu pássaro azul, deu o último suspiro.

Ela chorou, e lamentou sua morte. Mas em meio às lágrimas, lembrou-se das palavras do velho Destino. Sem pensar duas vezes, pegou uma faca e cortou o pássaro ao meio. Qual não foi sua surpresa ao ver que por dentro, em cada parte, ele era azul! Completamente azul!

Desnorteada e confusa, ela voltou ao fim do corredor, onde o velho Destino continuava sentado em seu banco.

– Você me enganou! – disse ela. – Olhe, ele é azul por dentro! É uma Mentira!

– Não, querida, ele não é uma Mentira. Mas também não é uma Verdade.

– Mas eu tinha certeza de que era! – ela começou a chorar e soluçar. – E ele me fez tão feliz… mas no fim, não era Verde.

– Sempre a mesma coisa… – a voz do velho parecia mais cansada do que nunca. – Eu realmente não entendo a obsessão das pessoas com cores. Azul é uma cor tão bonita.

Então ela parou, lembrando de cada momento com seu pássaro azul. De cada sorriso. O velho tinha razão, não importava se ele era verde ou não. Ele havia sido uma Verdade pra ela, com certeza. Com cada uma de suas peninhas azuis.

– Você está certo. – ela disse. – Acho que azul é a cor mais bonita de todas.

Os dois sorriram juntos. Enquanto todos os pássaros voavam, sem se importar se eram Verdades ou Mentiras. Afinal, eram todos azuis.

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