Conto: Últimos minutos

O relógio na parede do restaurante marcava 13 horas e 38 minutos. O ponteiro dos segundos seguia adiante com seus tiques, impiedosos. O tempo passava, e se esgotava.

Será que ela viria mesmo? Ele estava inquieto, sentado em um balcão e segurando um copo de uísque, enquanto seus olhos continuavam se movendo do relógio de pulso à entrada. Uma maleta marrom simples, única bagagem que trouxera consigo, se postava ao seu lado no chão. Não que ele fosse precisar de mais do que estava ali.

13:40 em ponto e lá vinha ela, levando os óculos escuros à cabeça com tanta graça quanto uma mulher poderia fazê-lo. O movimento jogou as mechas loiras para trás, enquanto os olhos dela encontravam os dele.

“Ela não envelheceu um ano sequer” – ele pensou.

“O que eu estou fazendo aqui?” – ela pensou. Cada qual interpretando de uma forma, não tão diferente, a súbita batida mais forte no peito.

A força do hábito forçou-o a olhar mais uma vez o relógio, 13:41. “Temos 19 minutos” – ele pensou, enquanto ela se sentava ao lado dele no balcão, em silêncio.

“Ele aparece aqui depois de todos esses anos e já está com pressa?” – ela pensou, irritada.

– O que está fazendo aqui, George?

– Olá para você também, Anna. – disse ele, com um meio sorriso forçado. Era difícil manter a calma.

– Oh, desculpe, imaginei que preferisse ir direto ao assunto, se está com pressa.

– Percebo que sua beleza não é a única coisa que continua a mesma depois de 7 anos.

Ela tentou não ruborizar. Suspirou. Seus olhos não desviaram, entretanto, lançando sobre ele acusações, rancor, condenação, nostalgia… dor. E ao mesmo tempo perguntavam: “Por quê”?

– Foi a sua pesquisa que te trouxe aqui? – Anna perguntou, a despeito das outras milhões de perguntas que queria fazer.

– Sim e não. É uma longa história, que não dá mais tempo de contar. Mas eu precisava te ver. – uma rápida olhada pro relógio, 13:44.

– Você realmente não tem noção de nada, não é? Eu sinceramente não sei o que estou fazendo aqui.  – ela explodiu e começou a se levantar. George levantou e segurou-a pelo braço imediatamente.

– Anna, por favor. – ele disse. E ela sentiu o tom de desespero na voz dele. Havia algo errado. – Por favor. – ele repetiu, e ela se sentou.

– Diga o que está havendo.

– Não é tão simples.

– Você sempre faz tudo do jeito mais difícil.

– Preste atenção. Por favor, preste atenção por mais 15 minutos. Nós não temos mais que isso.

– Mas, voc…

– Anna. – os olhos dele imploravam. Ela se lembrava daquela expressão dura, daqueles olhos implorando por compreensão. Mais nostalgia, mais lembranças, mais dor.

– Fale, George. – e dessa vez não haviam farpas em sua voz. Agora ela estava ouvindo.

– Anna, eu sei que é um ultraje eu aparecer assim, depois de tanto tempo… mas se você resolveu atender o meu chamado desesperado e vir até aqui me ver, é porque no fundo precisava ouvi-las tanto quanto eu preciso dizê-las. Primeiro de tudo… eu sinto muito.

– George…

– Me escuta. Eu sinto muito, não só por tudo que eu fiz… e não fiz. Anna… Eu sinto principalmente por ter perdido esses 7 últimos anos que eu poderia ter construído uma vida com você e…

– O passado não importa mais, George. – ela interrompeu. – Eu segui adiante, olhe. – ela estendeu a mão esquerda, mostrando a aliança no dedo anelar. – Eu tenho um marido agora.

– Eu sei… eu soube. – ele fechou os olhos por um segundo, com pesar. – E fico feliz por você, de verdade. Mas eu não segui em frente.

– Por que estamos abrindo essas feridas?

– Você não entende que elas nunca  se fecharam? Tudo que nós não tivemos se transformou em um buraco no meu peito. Um buraco que eu tenho… – ele olha pro relógio, 13:47. – Tenho 13 minutos pra tentar reparar.

– O que está acontecendo? – Anna começou a ficar preocupada.

– Não há tempo para explicar. Eu só preciso que você confie em mim uma última vez. – e então ele segurou as mãos dela. – Por favor.

Neste momento Anna pela primeira vez percebeu o quanto suas mãos tremiam. Ela olhou novamente dentro dos olhos dele, e tudo que uma vez já sentira voltou num turbilhão. O tempo, sempre visto como bicho-de-sete-cabeças, parecia completamente irrisório para ela agora. Mas não para ele.

– Anna, você confia em mim?

– S-sim… – ela respondeu, hipnotizada pela voz dele.

E então ele pegou a mala e abriu-a sobre o balcão. Tudo que havia nela era uma seringa, com um líquido lilás.

– Eu preciso injetar isso em você. Agora.

– O quê? Mas… O que é isso?

– Por favor, não faça perguntas… – ele olhou pro relógio, 13:49. – Anna, nós temos 11 minutos.

– Isso tem a ver com a sua pesquisa, não é? O que há de errado, George?

– Não dá pra explicar. Anna… Por favor? – ele estendeu a mão, sua expressão ainda mais desesperada do que antes. E ela estendeu o braço com receio, com dúvida, com medo.

George injetou a agulha devagar, enquanto explicava:

– Deve demorar uns três minutos para fazer efeito. Quando você sentir uma tontura, significa que ficará desacordada em poucos segundos.

– Se você está me dando isso… não deveria estar usando um também?

– Infelizmente não houve tempo de fazer dois. – e então ele sorriu o sorriso mais triste que Ana já vira em George, e ela não pôde evitar que seus olhos se enchessem de lágrimas.

– O que vai acontecer com você? – ela apertou as mãos dele com força.

– Não importa mais o que vai acontecer comigo. Eu já fiz o que eu precisava fazer.

– George… – não dava mais pra impedir as lágrimas de rolarem. Algo muito ruim estava prestes a acontecer.

– Anna, eu amo você.

E então o beijo aconteceu, um beijo carregado de 7 anos de amarguras e de sonhos frustrados. Um beijo que durou até que Anna tombasse a cabeça, subitamente pesada.

– Não… – ela balbuciou, forçando-se a olhar para George. A vista ficava turva, mas ela pôde ver pela última vez os seus olhos castanhos. O relógio na parede marcava 13:56.

Já estava tudo escuro quando ele a abraçou, sussurrando em seu ouvido: “Viva, Anna”. E então sua consciência se foi de vez.

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