Resenha: Precisamos falar sobre o Kevin

Confesso que não sei muito bem como começar.

“We Need to Talk About Kevin” (título original) mexeu muito comigo. A verdade é que o filme foi muito além do que eu esperava, tanto na própria história como nas atuações, mais geniais do que já era de se esperar da Tilda Swinton e do novato-prodígio Ezra Miller.

Tilda Swinton2

Esse é o tipo de filme que deixa um grande “por quê” na sua cabeça, o tipo de filme que não se preocupa em dar um motivo. A razão de tudo está ali, em algum lugar, respondido nas entrelinhas pelo próprio Kevin, em sua ousadia insana, na promiscuidade dos olhares, na monstruosidade inata e, principalmente, em seus sentimentos (que sim, eu acredito que ele tenha). Tudo isso responde a pergunta final de sua mãe, Eva: Por quê?

Mas nós precisamos responder por nós mesmos. Eu precisava responder essa pergunta internamente, também. E agora eu simplesmente PRECISO falar sobre o Kevin. Preciso falar e não vou me preocupar muito com SPOILERS, então leia por sua conta e risco.

The evil

Será que a maldade é algo que nasce com a pessoa? Será que seres humanos já nascem sendo psicopatas? Essas são questões que surgem ao vermos que, desde bebê, Kevin já apresentava um comportamento anormal. Mas ao contrário do que eu pensava quando vi o trailer, que a mãe seria apenas uma espécie de “vítima” do destino por ter gerado um monstro, o filme nos mostra desde o começo o quanto Kevin foi uma criança indesejada por ela. Eva era uma mulher bem sucedida que acabou tendo que mudar todo o seu estilo de vida após a gravidez. A atriz Tilda Swinton não precisa dizer uma palavra na cena pós-parto para você sentir isso, seus olhos dizem (ou melhor, gritam) o quanto ela não quer estar ali.

We need to talk about Kevin - scene2

Mas ela se esforça. E não é pouco, ela se esforça bastante para ser mãe. Por que, convenhamos, ela não é. Ela é uma mulher que teve um filho difícil e tentou lidar com ele, mas não é uma mãe. E Kevin sente isso. Ele sabe, ele é o único que enxerga a mãe mais profundamente do que qualquer um. Será que ele realmente nasceu um psicopata ou isso foi induzido pela ausência de amor (ou amor forçado) da mãe? Essa é outra pergunta que cabe a você responder.

Tilda Swinton

“- Você não gostaria de ter alguém para brincar?

– Eu não gosto.

– Mas você pode se acostumar…

– Se eu não gosto, eu não gosto e pronto. Por que eu tenho que me acostumar?

– Por que a vida é assim, a gente se acostuma com as coisas.

– Assim como você se acostumou comigo?”

Ezra Miller as Kevin

Mas o instinto maternal de Eva acaba aflorando, não por Kevin, mas pela pequena Celia, outra gravidez acidental em meio à turbulenta relação entre mãe e filho. É claro que esse nascimento afetaria Kevin profundamente. Ciúmes? Eu acredito que sim. E aqui já não dá mais pra argumentar que ele não tem sentimentos: é nítido, apesar de tudo ficar nas entrelinhas.

Celia

Afinal, tudo no filme está sutilmente explícito, explicitamente oculto. Nada é mostrado, mas tudo choca. Um garoto que parece ser apenas o típico irmão mais velho chato, um bichinho de estimação que desaparece sem explicação aparente (alvo preferido de jovens psicopatas, convenhamos) e finalmente um acidente que acaba custando um olho da irmã. Você não vê nada disso acontecer, mas você sabe quem está por trás de tudo. Eva também sabe, só pelo modo cínico com que Kevin descasca uma lichia e a morde, como se fosse um globo ocular estourando (o que é mostrado com um zoom perturbador).

Ezra Miller as Kevin2

Vemos três fases de Kevin, com 6 anos (Rock Duer), 10 anos(Jasper Newell) e 15 anos (Ezra Miller). E o tempo todo suas atitudes são direcionadas para a mãe. Para provocá-la? Para afetá-la? Para se vingar dela? Para fazê-la sofrer? Para se divertir? Para manipular? É você quem decide, mais uma vez. Porque, no fim das contas, pode ser tudo isso ao mesmo tempo.

Rock Duer as Kevin

Jasper Newell as Kevin

Kevin parece ser para nós, o tempo todo, a própria maldade personificada. O ápice é o sangue frio arrepiante com que ele assassina o pai, a irmã e vários alunos da escola. Claro que nada disso é mostrado, mais uma vez as entrelinhas são usadas genialmente, em cenas que aterrorizam sem precisar mostrar absolutamente nada (ou muito pouco).

Kevin bow scene

E quando ele sai da escola com as mãos pra cima e o sorriso cínico, seu olhar está fixo na mãe. Ele entra no carro da polícia mas continua olhando para trás. Para ela.

O quanto Kevin é obcecado pela mãe? O quanto ele a odeia? Ou, aqui eu entro com a minha maior indagação de todas: o quanto ele a ama?

Eu lembro da cena em que ele, com 10 anos, fica doente, e pela primeira e única vez faz uma demonstração de carinho para a mãe, mas mudando para o comportamento de sempre no dia seguinte. A cena em que ele exibe a cicatriz do tombo causado por ela, para induzir culpa. Quando ele destrói a decoração que ela passou dias fazendo com mapas mundi (remetendo à saudade da vida que tinha antes de engravidar). A cena em que Eva e a filha vêem Kevin, já adolescente, parado no meio da rua encarando o poster do livro da mãe.

Eva and Kevin

O amor pode ser muito complicado, às vezes. E distorcido. E esse sentimento misturado ao rancor de uma criança com tendências psicóticas pode resultar numa total catástrofe. Na minha opinião, Kevin é isso: a própria catástrofe. Sua personalidade acaba sendo nada mais que uma fatalidade.

E então ele consegue destruir completamente a vida da mãe. É neste ato final que o filme começa, mostrando a decadência de Eva, numa tentativa desesperada (e um tanto quanto frustrada) de retomar sua vida. Só então mergulhamos em todos os porquês através dos flashbacks, das indas e vindas da mente dessa mulher assombrada por um fantasma vivo.

Tilda and the actors who did Kevin

E Eva vai constantemente visitar esse fantasma na prisão, apenas para sentar na frente dele e sustentar um silêncio que grita. Sim, por que tudo nela grita. “Por quê?”.

Até que no fim, dois anos após o incidente e depois de termos indagado o por quê mil vezes junto com Eva, ela finalmente pergunta ao próprio Kevin. É ai que sua expressão, de repente e pela primeira vez no filme inteiro, quebra. Você vê pelo seu olhar, sempre frio e ausente de qualquer humanidade, que pela primeira vez ele perdeu o chão.

Kevin - final scene

“Eu pensei que você sabia. Agora já não tenho certeza.”

Ela não pergunta mais nada. Nem você, pois a essa altura você já achou sua própria resposta.

E então a mãe apenas abraça seu filho.

Kevin

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4 comentários em “Resenha: Precisamos falar sobre o Kevin

  1. Meus parabéns. Vc escreve e pensa muito bem. Me despertou várias reflexões. Me permita compartilhá-las um pouco.

    Não vi o filme. por isso, só posso entendê-lo pelos seus olhos. De certa forma, creio que todo ser humano precisa e quer ter lugar no mundo. Ser alguém, principalmente alguém para alguém. Não apenas ser amado, mas ser amado de tal maneira que esse amor do outro lhe dê significado. Que diga silenciosamente:

    vc é,
    vc é amado,
    vc é importante (para mim).

    Esse garoto desde o nascimento, talvez antes mesmo, diria eu, não obteve esse significado. Como um pergunta sem resposta. Por isso três metamorfoses para poder sobreviver e significar-se como ser humano.

    A primeira: transformar-se nessa pergunta. Não apenas tê-la, mas sê-la. Permanentemente endereçar a sua mãe esse desconforto. Não se encaixar, ser sempre incomodo. Como se afirmasse/perguntasse: “é isso o que sou?… uma coisa que não pode nem deve ser amada?” que se metamorfoseia em

    ” eis o que sou.. uma coisa.. não alguém… não um ser humano”.

    Sendo, portanto, coisa, está fora do humano, fora do relacionar-se, fora das regras. Só lhe resta agir fria e maquinalmente.

    Segunda: agredir. Como vc mesmo explicita, agredir a tudo e a todos para agredir a mãer. No agredir, um ato de esperança de provocar uma reação que lhe dê significado. A lógica é:

    o medo ou a culpa despertados no outro passam a ser sinal de que existo para o outro.

    O outro(mãe) não é, portanto, indiferente a mim. Com um agravante. Essa não é um condição de troca plena, de relacionar-se pelo amor, mas sim e a partir do desamor original. Por isso essa atitude/condição investe em perpetuar o desamor e a agressão como paliativos de sempre receber alguma coisa dolorosa (sentimentos/significado) ao invés de não receber nada.

    A terceira metamorfose é deixada em aberto pelo filme. E agora? Tendo atingido o ápice da agressão e de não ser humano, o que sobra? Qual gratificação? O que sou agora?

    Quando ele diz “pensei que vc soubesse”, me ocorre outra linha de pensamento:

    a resposta está lá desde o seu nascimento.

    A mãe, em seu choque, em seu desamor inicial, lhe deu inconscientemente um primeiro significado:

    vc é a minha dor. Vc é aquilo que vem para me complicar a vida e não para me completar. É isso que vc é. Vc vem para me esvaziar. Não-vida.

    Paradoxalmente, é isso que ele se propôs ser e cumprir. Simplesmente seguiu um script inconsciente. Tornou-se essa coisa abjeta. Como se no fundo ao tornar-se isso completaria a afirmação inicial silenciosa e trágica da mãe. Sua pergunta final, sua crise de identidade, sua metamorfose final , é “puxa…sou o que vc esperava de mim.. não está feliz.?.. me ame… sou o que vc esperava.. como assim vc não sabia?… não era isso o que estava em jogo?… e agora?

    Com tudo isso tudo dito, novas reflexões, que é tudo que temos: ele é o que é apenas por causa da mãe? O que é inato dele? A mãe tem responsabilidade sobre isso tudo? E isso, afinal de contas, é psicopatia?

    Cordiais saudações

  2. Acho que uma coisa que não é muito questionada nas resenhas é o papel da Eva. O Kevin pode ser um filho imbecil? Sim. Mas e ela? Nitidamente ela tentou se aproximar dele durante o livro INTEIRO mas será que ele deu espaço pra ele chegar?
    Só não faço comentários da resenha em si e sim essa pergunta porque tem muitos detalhes esse livro e é esse que mais me atormenta.
    Enfim…
    🙂

    • Bem, o que eu acho sobre isso: sim, ela claramente tentou se aproximar, sempre, mesmo contra a própria vontade, e sempre se perguntando “a culpa é minha? o problema é comigo?” – e por ela mesma assumir a culpa para si, eu acho que desde sempre o Kevin também assumiu a culpa como dela. Em momento nenhum ele olhou para si mesmo como culpado, ou como potencial influenciador para mudar este status. Não que ele QUISESSE isso… mas acho que é uma boa explicação para ele “quebrar” no final, desconcertado com a posição da mãe em relação a tudo. Quem sabe, talvez, ele tenha pela primeira vez sentido um pouco dessa “culpa”.

      (nossa, eu acho que discutiria sobre o Kevin pra sempre XD)

  3. FANTÁSTICA resenha sobre o filme. Concordo em gênero, número e grau. Kevin foi sufocado pelo amor mal resolvido que sentia de maneira que isso resultou numa psicopatia sempre em busca da atenção dela, de forma positiva ou não.

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