Conto: Olhe para cima

– Já reparou que as gaivotas parecem estar paradas no ar, quando planam? – disse Paulo.

Julia ficou furiosa.

– Você não ouviu uma palavra do que eu disse, não é?

Nesse momento o ônibus deu uma desacelerada brusca, provavelmente por causa de algum apressado que resolveu cortar sem ligar a seta. O tranco arrancou um palavrão de Julia, em decibéis um pouco mais altos do que deveriam. Paulo achou graça na forma como ela ruborizou, e tentou não deixá-la ainda mais sem graça retomando o assunto:

– Desculpe, é que é um fenômeno muito interessante… – ele tentou dizer.

– E os problemas acadêmicos da sua namorada não são importantes?

– Me desculpe. – Ele repetiu, dando um sorriso sereno. O de sempre. – Continue.

– Ah, esquece. – Julia bufou.

Ela realmente não entendia como Paulo conseguia manter essa calma, às vezes chegava a ser irritante. Claro que a TPM agravava ainda mais a situação, em meio a todos os dilemas que lhe tiravam o sono. Continuar ou não o curso de Nutrição?  Será que daria certo largar e arriscar fazer o curso de Gastronomia que ela sempre quis? Há dois anos parecia boa a ideia escolher o curso mais “próximo”, para o qual os pais não torceriam tanto o nariz dizendo algo do tipo “Como você vai se sustentar fazendo isso?”. Mas agora, cada vez mais lhe deprimia a falta de sentido no que estava fazendo.

– Você já olhou para cima no Centro? – disse Paulo, interrompendo de súbito seus pensamentos.

– Hein? – Julia tentou processar a pergunta repentina.

– No Centro do Rio. Olhar pra cima, para os prédios.

– Paulo, do que você está falando?

– Esses dias eu tive que encontrar o Gilson no Centro. Segunda. Eu te disse, lembra?

– Aham…

– Pois é, eu não sei muito bem porquê eu resolvi olhar pra cima. E os prédios me pareceram bem mais altos do que eu esperava.

– E o que tem isso? – Julia já estava à beira de perder o pouco de paciência que lhe restava.

– É que eu percebi que nunca tinha realmente olhado para cima no Centro do Rio. E de repente me ocorreu que as pessoas não costumam olhar muito para cima.

– Certo, talvez. Mas por que esse assunto do nada?

– São as gaivotas.

– Argh, de novo as gaivotas!

– Olha pela janela.

Julia olhou, meio a contragosto e já de saco cheio daquele papo. “Pra que eu fui namorar um estudante de Artes?” – pensou. “São todos completamente malucos”. Eram só gaivotas, afinal. Ela as via todos os dias atravessando a ponte Rio-Niterói, pela janela do ônibus. Mas, observando bem agora… elas realmente pareciam estar paradas no ar quando planavam. Era engraçado… pra falar a verdade, era mesmo meio fascinante. A velocidade do ônibus deixava-as para trás, como se elas não tivessem saído do lugar. Como se estivessem penduradas num cenário, com um barbante. E hoje elas pareciam estar em maior quantidade. Na verdade, tinham gaivotas até demais.

– É alguma época especial do ano para ter tantas? – ela perguntou.

– Pois é, eu não sei. – disse Paulo. – Mas agora, olha lá em cima. – ele apontou.

Muitas gaivotas. A maioria formava grandes “V’s” em bandos, mas algumas voavam muito mais alto, longe de todas as outras.

– A gente sempre olha as gaivotas pela janela, mas você já tinha olhado pra cima, pra ver as que voam mais alto?

– Eu acho que não… – ela disse. Nunca tinha reparado que gaivotas eram capazes de voar tão alto. Simplesmente nunca tinha parado pra pensar nisso.

– Você sabia, – continuou Paulo – que os porcos são incapazes de olhar pra cima?

– Porcos? Não, não sabia.

– Sim, eles são fisicamente incapazes. Eles nunca vão olhar pro céu. Mas, por sorte, a gente  pode enxergar as gaivotas que voam mais alto.

Julia sorriu pra ele. Paulo sorriu de volta e deu um beijo na namorada.

– Eu tenho certeza que você vai tomar a decisão certa quanto à sua faculdade.

Ela ficou surpresa. E de repente uma onda de paz lhe deu uma certeza irracional de que tudo ia ficar bem.

– Obrigada. – disse Julia, deitando a cabeça no ombro de Paulo, satisfeita por namorar um estudante de Artes.

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