Conto: Joana matou 1000 Dragões

Aqui é a Tábata e esse é o primeiro conto que publico, mas não é o primeiro que escrevo. É o primeiro de uma série, mas com certeza não é o melhor.
Ele foi escrito no final do Ano do Dragão, o signo chinês que rege meu ano de nascimento. Acreditem ou não nesse tipo de coisa, o Dragão é um símbolo muito poderoso, e sinto que esse conto representa o primeiro dos meus 1000 Dragões.

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Joana matou 1000 dragões, ela me disse. A meia noite se rompeu e ela atravessou o espelho, sem nem eu precisar chamar. No ponto em que as horas se desamontoam, Joana vem me contar como decepa a cabeça de seus rivais. Traz em seu pescoço um colar com 1000 dentes.

– A experiência pesa. – Ela filosofa enquanto senta na beirada da minha cama. Realmente, o peso de sua armadura e das presas em seu pescoço faz ranger dolorosamente os estrados do meu leito. Os lençóis se retorcem e repuxam agarrados em desespero ao meu colchão. Os cabelos são uma cascata negra que serpenteia nos joelhos e desemboca em seus calcanhares. Pende da nuca em ondas revoltosas. Quase posso ver o vento estapeando os fios pesados, com ímpeto, depois com cansaço. Posso ver os movimentos, magicamente, mesmo com a janela fechada.Joana era uma exímia contadora de histórias. Sabia construir o caminho para o clímax, alternando o momento de desespero, onde tudo parece estar perdido, a idéia genial e improvável que pode salvar sua pele, e a vitória inacreditável. Sua expressão corporal era sempre condizente com o que acontecia durante o relato. Torcia suas mãos em torno da empunhadura da espada e cortava o ar com a lâmina e seus gritos extraordinários.

Hoje, no entanto, Joana substituíra seus olhos aficionados por olhos de mulher. Visão sem foco, ela me disse:

– Não sei se você vai gostar da história de hoje, mas devo ser honesta com você.

“Seja honesta” eu disse. “Nada melhor”

Joana deitou sua espada sobre seu colo, inofensiva, e se virou para mim:

– Por muito tempo minha vida foi matar dragões e proteger os homens dessas feras que nos queimam e devoram. Nunca demonstrei embaraço em dizer que odiava essas criaturas pavorosas, gigantes voadores, lagartos escamosos, o resumo dos medos humanos que lambe em fogo nossas casas. Seus rugidos estremecem a terra e engolfam nossa coragem. Eu, por conseguinte, deixei a ira me consumir pelo bem de todos. Esperei que as almas ceifadas dos meus estivessem comigo. Por diversas vezes senti a morte soprar em meu pescoço suas palavras agourentas, mas tudo que elas deixaram foram as cicatrizes que escondo por debaixo dessa brilhante armadura. Cortei as asas de criaturas abismais e matei seus filhotes para evitar problemas futuros. A sensação de dever cumprido só emergia quando cintilavam os rios de sangue sobre as pedras e a terra.

No entanto, não muito tempo atrás, eu encontrei uma criatura magnífica. Preciso dizer: horrenda e magnífica! Enquanto mantinha minha caçada de extermínio, ouvi sobre um dragão que gostava de cuspir fogo para a chuva. Ele pousava suas garras gigantescas sobre a clareira do pasto comunal no vilarejo pelo qual passei, assustava a todos com o seu rugido áspero e abria sua boca contra o céu carregado, como se quisesse engoli-lo. Segundo a mesma informação, as labaredas podiam ser vistas a quilômetros de distância e os vapores se espalhavam pelo ar dos arredores. Alguns poucos se arriscaram a espiar a criatura. Destes, nenhum havia visto qualquer dragão na vida, e não me espantei com os exageros em suas falas. Uma dessas testemunhas chegou a afirmar que a dita criatura era do tamanho de um castelo e suas escamas mergulhavam em um azul que só presenciamos no céu do entardecer. Ainda, os olhos amarelos do dragão faiscavam no breu da noite como se carregassem um brilho próprio e chamas por trás das íris. Após essa demonstração imperiosa e o fim da chuva, o monstro alçava vôo e mergulhava perpendicularmente em direção às nuvens.

Minha decisão foi esperar a chuva voltar. Era verão e o retorno das águas custava a chegar. Nesse meio tempo, achei por bem repassar minhas histórias para os moradores, principalmente para as crianças e velhos do local, assim como faço com você. Alguns dos adolescentes me ajudavam nas dramatizações, e eu e minha espada cortávamos cabeças ferozes, escapando de sermos assados, formulando uma idéia genial no último instante. Um mês e meio se passou com nada mais do que precipitações finas em noites esparsas. A cada dia, um novo dragão agonizava e perecia pela minha espada, embrenhado na minha história;  uma de suas presas passava a adornar meu colar. Para os jovens impressionados eu os mostrava como troféus. Estavam sempre ávidos para tocar nas provas de minha coragem qur eclipsava o medo sob sua sombra.

O tempo cobrou sua resposta rapidamente, e vi através dele o entusiasmo por minhas estórias se dissipar. Nunca havia ficado tanto num mesmo local, e eu mais do que ninguém, estava cansada de esperar. Do outro lado, as crianças do vilarejo ansiavam por mais em minhas aventuras. Queriam saber se eu já exterminara alguma bruxa, findara alguma maldição, libertara pessoas do velho-do-saco ou se já me apaixonara por alguém no caminho. Os meninos esperavam que eu contasse sobre os duelos que eu travara e a forma como eu punira ladrões e assassinos. Eu os decepcionara ao dizer “Desculpem, mas me dediquei a exterminar dragões, e é isso que farei até que minha vida se despedace nas mandíbulas de um.” Um senhor que sempre escutava e observava minhas histórias exclamou:

– Que pena! – Pude sentir uma preocupação espontânea e verdadeira na sua voz. Repousou suas mãos na bengala que carregava e se esforçou para levantar da pedra onde se instalara durante a história do dia. Respondi em seguida, arredia:

– Não tenha pena de mim! Tema e reze por aqueles que morrem sob a imensidão feroz de um dragão! – O velho abaixou a cabeça, resignado. Esbofeteei sua compaixão para longe.

*

Cada gota de chuva caía como passos apressados afundando na lama. O vento chicoteava as casas e a tempestade construía seus sons próprios: pingos como chumbos no metal, na madeira, nas pedras; portas e janelas batendo e dobradiças lamentando. Eu me dirigi ao pasto da vila, localizado na planície descampada mais próxima. O tempo estava terrível, como se o céu estivesse guardando toda a sua fúria para aquele momento e desabasse todas as frustrações sobre aquele lugar. Todas as superfícies cintilavam molhadas e escorregadias. O azul noturno do céu, escondido pela solidez gasosa das nuvens, vez ou outra estremecia e acendia animado pelas trovoadas metálicas. Lá embaixo, eu lutava para retirar meu pé da lama após cada passada decidida. O peso da armadura também não ajudava. No instante em que vi uma labareda arder impossivelmente em direção aos raios, meu coração acelerou de medo e excitação.

– Maldito, aí está você! – Gritei instintivamente.

“Espetacular!” pensei quando uma segunda labareda ascendeu às nuvens. Uma nova onda de excitação e ansiosidade atingiu meu coração. Retirei minha armadura e corremos, eu e minha espada, em direção ao Dragão.

Quando as árvores se descortinaram na minha frente, nada me preparara para a colossal imagem que se erguia sobre mim. Minhas pernas inconscientemente moveram-se para trás. Na minha visão aquela criatura era um erro catastrófico da natureza, um pesadelo real, o mais incrível monstro com o qual já me deparara. A tempestade tornava a cena muito mais dramática, admito, mas qualquer que fosse a condição do tempo, o lagarto escamoso que rugia para o céu ocupava realmente o espaço de um castelo.

“Não deveria ter retirado a armadura” – Pensei a contragosto – “Como nunca ouvi falar de tamanha bestialidade?”

Mas eu não desperdiço oportunidades. Precisava pensar numa estratégia rapidamente. Chuvas de verão podem findar de uma hora pra outra. Pensando bem, retirar a armadura fora uma boa ideia, e o que eu precisava era de agilidade, não de um aparato pesado e barulhento. O ruído da chuva cobria meus passos, mesmo assim, tentei contornar o pasto pelas bordas da clareira, me escondendo por trás das árvores como um felino sorrateiro. Foi uma caminhada considerável até chegar à cauda do dragão: um ponto vulnerável, onde espinhos de dois metros cada subiam formando uma trilha em direção à cabeça bestial, levando-me aos seus olhos amarelos, minhas primeiras vítimas. Precisava preparar minha arrancada, pois uma vez nas costas do dragão, logo eu seria percebida como uma barata subindo em nossa perna durante a noite, minúscula e incômoda.

Uma vez mais a onda de medo contornou meu peito, mas eu não poderia deixar o temor enclausurar meu coração. – A luta contra o medo era comum em minhas caçadas, e derrotá-lo era uma tarefa tão estafante quanto matar dragões. Ultimamente, no entanto, comecei a ignorar com mais facilidade esse sentimento e crer com mais convicção na minha invencibilidade. Comecei a achar que, por maior e mais corajoso que fosse o coração dessas criaturas, todos pereciam na ponta de minha espada e punhal. Matar dragões acabou se tornando natural, uma tarefa fluida e a única realmente importante na minha vida. No entanto, essa criatura desafiava minha noção dimensional e trazia de volta o medo ao campo de morte. Mas meu ódio era o mesmo de sempre, e ele era minha maior força. Eu sei que não parece nobre, mas sempre achei que não havia importância de onde vinha minha motivação, mas sim o tamanho dela.

Juntei todos os sentimentos que estremeciam meu peito e os coloquei nas pontas dos pés. Posicionei-me como um corredor no ponto de largada, a espera do sinal. No momento seguinte mais uma torre de fogo se ergueu, sólida, em direção aos céus. O clarão inundou meu campo de visão, tornou a noite dia por alguns instantes. Fechei meus olhos. Esse era o sinal! Pálpebras cerradas, atravessei o vento com a minha fronte erguida e chutei os espaços à minha frente obedecendo a explosão dos meus músculos. Estava irresistivelmente convencida de que se nada visse, menos hesitaria. A partir daí, não haveria dedicação para qualquer outro sentido que não fosse o tato nos meus pés, escavando com impacto a massa de terra e chuva sob nossas cabeças.

Um estalo se passou até que consegui alcançar os espinhos na cauda da criatura. Neles apoiei minhas mãos; estas, como multiplicadas em dezenas, escalaram com fluidez as placas azuladas e escamosas dispostas no dorso do dragão.

Ah Sim! Sua cabeça, meu alvo! Seus dentes, minha presa! Na minha própria escuridão eu via seus olhos em chamas, prontas para serem atravessadas. Elas forjariam o novo formato de minha lâmina. Senti o calor danoso da labareda perfurando meus poros, o suor manchando meu pescoço desprotegido. Se eu abrisse os olhos, a visão do terror me faria sucumbir o espírito. Continuei a subir, vendada pela cautela; o calor dobrando seus lençóis sobre mim. Um minuto mais tarde, o brilho alaranjado que transluzia pelas minhas pálpebras perdeu a intensidade. Os lençóis de calor se desdobraram e o desatino do dragão contra a chuva esmaeceu repentinamente

Ele me percebera.

Tempo para desembainhar minha espada e alimentá-la de força. Finalmente abri os olhos: depois de subir pela colina, era hora de enxergar meu alvo do topo, de onde eu não teria como descer sem uma dura queda, em vitória ou derrota. Alinhei meus sentimentos novamente, ansiedade, raiva e medo, e os realoquei no meu braço direito.  O mundo era pequeno e minha espada afiada, ensaiada e a postos no meu horizonte cambaleante. Mão esquerda agarrada nos sulcos entre escamas, mão direita firme. Soprei minha condenação em seu robusto pescoço: “Dê-me um segundo!!”

Músculos se contorceram sob mim e a chance se formou quando a colossal cabeça da criatura se virou para me enxergar. Mirou sua íris de fogo contra a determinação que vibrava do meu peito para o resto do corpo, mas não conseguiu miná-la. Finalmente pulei para o abismo, para cravar minhas presas no próprio medo! Corpo ao alto, neguei a gravidade. Nesse momento minha mente se desanuviou; um livro inteiro, frente e verso, capa e contracapa em branco. A idéia já havia sido alinhavada, e seus olhos seriam meus!

Mas, não mais que um segundo depois, uma dor inesperada foi inscrita no meu corpo, braços e costelas em exatidão. Senti minha pele rasgando enquanto rolava pelas escamas azuis em direção ao chão. Só percebi o que havia acontecido quando mergulhei na lama gelada. Eu havia sido atingida pela ponta da cauda do dragão. Ela me esbofeteara como se espantasse uma formiga desatenta. Minha espada escapou das mãos e o que eu carregava agora eram ossos inúteis. Escutei a morte gritar e invadir o ar em um rompante. Os rugidos estremeceram minha respiração e por muitas vezes ela se recusou a sair, tão assustada quanto eu.

Meu livro em branco, manchado pelo único desespero. Mantive minhas mãos sobre ele. Precisava sair… sair da visão desse bastardo! Hora de agarrar minha consciência com as unhas, mas ela tendia a querer me abandonar, minha própria mente em operação de sabotagem. Meu corpo tentava arrancar-me da superfície e todo o meu lado direito ardia e se contorcia. Cada rajada de vento e chuva chispava estalando pesadamente nas minhas entranhas.

Medo, medo… Minhas páginas manchadas pelo medo. Pensei que nunca deveria ter aberto os olhos, então decidi os fechar novamente. As formas do monstro continuavam estampadas na minha mente, porém muito menos reais. Senti um gole de coragem atravessar minha garganta e dançar no meu peito. Se houvesse que seguir para a morte, eu mesma me arrastaria para ela! Com metade do corpo em estado razoável, isso era tudo que eu poderia fazer. A tempestade tornava o cenário confuso; jogava suas gotas de pedra sobre a lama, a marcava com determinado padrão para depois refazer o processo continuamente. Cavei minha cova rasa e abri meu caminho pela terra com a mão esquerda. Enquanto isso impulsionava meu corpo com a perna restante. O chão me abraçava com sua pele gelada. Enquanto isso ele vibrava no ritmo de nossas respirações aceleradas. O gosto da terra invadindo minha boca e seus pedregulhos arranhando minha testa. Vez ou outra criava coragem para puxar o ar perigoso e úmido da superfície. Sem qualquer tipo de prenúncio o ambiente estremeceu novamente:

– Sua coragem é muito grande, mas serve a propósitos escusos. De onde ela vem?

Levantei a cabeça e abri os olhos como uma tartaruga em atenção. Pensei “Deve ser a morte ditando minha sentença”. Não tinha fôlego para gritar, então suspirei e sussurrei: “Minha coragem vem do ódio!!!”

– É uma pena – Rugiu o dragão – Numa caçada moldada pelo ódio, um dia você encontrará alguém com mais ódio com você. Você pode encontrar à mim, que tem ódio até da própria chuva, e de alguém que matou 1000 dragões.

“Essa realmente é minha sentença” – Não pude me conter em sentir alguma tranqüilidade nesse pensamento. Eu me desfiz da escuridão e me revirei na lama a fim de encarar o monstro. Suas iris de fogo perfuraram as minhas. Gigantes e belas esferas de chamas flutuando na escuridão. Os trovões da tempestade descortinavam o céu, e nesses momentos era possível observar o colossal corpo azulado, quase negro sob a umidade. A dor em minhas costelas me avisava que eu estava próxima de desmaiar… Desmaiar ou morrer, tanto fazia. Esses conceitos se desfizeram na minha mente. Tudo se tornou fantasioso enquanto descansei minha cabeça na lama. Delirei e palavras que não eram minhas saíram de minha boca, roucas e arrastadas:

– Matei tantos dragões… Mal sabia que apreciavam o ódio tanto quanto eu…

Mais uma labareda rompeu na noite, e os vapores explodiram na clareira. Distingui minha condenação final, um murmúrio lento, quase um conselho:

– Então abra seus olhos e ouvidos.

Mais uma vez meus olhos cerraram as pálpebras e me deixei perder o sentidos e acompanhar a inconsciência.

*

– Joana, você está viva? – Esperei uma resposta objetiva para uma pergunta dessa natureza.

– Desculpe minha querida, não sei bem lhe responder. Sinto meus pés e braços, mas não sinto mais meu ódio. De alguma forma, sei que estou como deveria estar. Então se estou viva ou não, é irrelevante.

12:00:59

– Boa noite Joana.

– Boa noite – Ela me desejou enquanto atravessava meu espelho. Não havia vento, mas seu cabelo ondulava, vivo.

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