Conto: Para sempre

– Alô. Julio…? É a Duda. Tudo bem? – ela falou, como se tivéssemos nos visto ontem.

Foi uma boa surpresa, claro. Mas ainda assim, uma surpresa. Dessas que te pegam desprevenido. “Há quanto tempo!”, eu disse, claro. Tão clichê que eu não pude evitar.

O resto da curta conversa me levou a estar aqui, em meio a estes balões cor-de-rosa e decoração da Hello Kitty. No bolo, uma vela em forma de “5”.

Gustavo, o meu filho de seis anos, já fez amigos e está correndo pela casa, como se fosse dele. Invejo-o por conseguir se sentir tão à vontade aqui, quando eu gostaria muito de pelo menos um pingo dessa naturalidade.

Nós chegamos há apenas alguns minutos atrás. Eu sabia que vir até aqui talvez mexesse comigo, mas não imaginei que sentiria tal tontura e nostalgia ao vê-la. O  rosto sorridente. O cabelo castanho claro, ligeiramente mais curto que antigamente. Uma ruga aqui e ali. As mãos delicadas pousando sobre a grande barriga de sete meses.

“É um menino dessa vez”, ela disse. “Entrem”, ela disse. O que me fez lembrar que a minha esposa estava bem ali, do meu lado. Será que eu deveria ter contado à Clara que Duda era uma ex? Não. E ela não era “só” uma ex, também. Me senti subitamente mal, não tanto pela culpa do segredo, mas por ter pensado por um segundo em Duda com uma palavra tão banal de duas letras.

Clara está comentando alguma coisa, agora. Sobre um vestido vermelho, talvez. Como aquele que Duda usava naquele domingo de outono, quando fomos dançar tango. Ou será que ela está falando sobre a decoração? Sim, aquele dia foi divertido. Quer um salgadinho de queijo? Eu pego e como um ou dois, lembrando o quanto Duda odeia bolinhas de queijo, deve ter cedido ao gosto das crianças por eles. Pego um copo plástico com refrigerante. As crianças correm em direção ao animador da festa, que chama num microfone. E a minha mente involuntariamente corre em direção ao passado.

– Você viu onde está o Gustavo? – Clara diz, me puxando de volta.

– Eu não sei. – eu balbucio, lidando bravamente com o choque de frear no presente. “Eu vou procurar por ele”, eu digo, me levantando.

A casa é bonita. E é incrível como eu consigo enxergar o gosto de Duda aqui. “Essa poderia ter sido nossa casa”, eu não consigo evitar de pensar. Não conseguindo também evitar a culpa deste pensamento. Eu amo Clara, sem dúvida. Mas a nostalgia de repente está tornando o presente – a realidade – meio turva.

O que eu estava fazendo mesmo? Ah sim, procurando pelo Gustavo. Tem uma luz vindo de um dos quartos, e vozes de criança também vem de lá. Como eu imaginava, lá está ele, agachado no chão. E com ele… uma linda menininha de 5 anos. Sara, filha de Duda. O cabelinho encaracolado preso por um laço vermelho. O vestidinho de princesa arrasta no chão enquanto ela mostra à Gustavo sua caixa de Legos.

Eu não me movo, apenas observo. Não posso deixar de sorrir, de apreciar os dois brincando juntos. Mal percebo quem havia se aproximado, e está agora do meu lado contemplando a mesma cena. Dando o mesmo sorriso. E olhando nos olhos dela, nos olhos ligeiramente lacrimejados de Duda, eu tenho certeza que também estamos pensando a mesma coisa.

“Poderiam ter sido os nossos filhos ali”, é o que pensamos. A visão de um futuro que um dia existiu.

Mas esse momento, esse deslumbre, já passou. Agora Gustavo está levantado vindo em minha direção. Duda está chamando Sara para fora, dizendo aos dois para irem brincar com as outras crianças. E eu também preciso voltar para lá. Para Clara. Para o presente.

“Julio” – Duda, está segurando a minha mão agora. O passado ainda me impedindo de voltar pro futuro. “Eu ainda amo você”, ela diz, e sorri. E ambos entendemos que isso não quer dizer que ela não ame seu marido.

“Eu também amo você”, eu digo, e também sorrio. Pois ambos sabemos que isso não quer dizer que eu não ame a minha esposa.

O olhar se prolonga apenas o tempo suficiente para nos despedirmos das nossas nostalgias. E então nós voltamos juntos para a festa, para nossos respectivos presentes, nossos distintos futuros. Ambos ainda acreditando que, no fim das contas, não importa para que lado cada uma das nossas vida foi. As promessas de “para sempre” ainda são reais. E sempre vão ser.

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2 comentários em “Conto: Para sempre

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