Conto: Sobre como eu não consigo escrever contos

“Era uma noite escura e tempestuosa”

Não, muito clichê. Idiota, até. É como se só existissem noites escuras e tempestuosas para se começar uma história. Fala sério, não vivemos no ambiente da trilogia Matrix.

“O casal se encontrou em uma manhã ensolarada de verão e…”

Lá vou eu de novo, mergulhando fundo em clichês. Aposto que daqui a pouco falarei de uma princesa que é salva de um dragão por um bravo e galante cavaleiro.

“A chuva caía torrencialmente quando ele a vislumbrou: linda, até mesmo encharcada pela tempestade. Ainda mais linda quando xingava tudo à sua volta após o guarda-chuva quebrar. Decidiu ir até ela, era uma chance que não podia se dar ao luxo de perder. Ao se aproximar…”

Argh, outro. Ela xinga, ele dá alguma resposta inteligente e sagaz, vira as palavras dela de ponta-cabeça, ela se encanta e o resto os filmes já nos disseram o que acontece. Ok, agora vou tentar mais a sério.

“- Miserável, não quero te ver nunca mais! – Ele não tinha resposta, sabia que merecia tudo isso e muito mais. Fora um canalha, mentiroso e, acima de tudo, um homem desonrado. Traíra a única mulher que o amou justo com a prima dela! E você ainda…”

O único amor da vida, e lá vamos nós. O sujeito faz uma besteira, perde o único amor, fica se culpando e depois começa a restejar implorando perdão. Ela se dobra, perdoa ele e são felizes.

“- por favor, eu estava bêbado. Você quer mesmo jogar todos os nossos anos no lixo? Não foi culpa, eu nunca faria isso a você…”

Viu? Meia dúzia de palavras doces e um arrependimento artificial e pronto.

É por isso que eu não consigo escrever contos. Sempre acabo caindo em clichês e renegando minhas próprias criações. Simplesmente não consigo pensar que estou escrevendo “mais do mesmo”. Sabe, porque eu me daria ao trabalho de escrever algo que já foi escrito dezenas de vezes? Não vale o esforço (para mim).

E eu também não sei fazer aquele final bom para um conto. Aquele final que faz a pessoa olhar para a janela e pensar no conto que acabou de ler. Vou ali mestrar RPG que é mais fácil…

–//–

Ah, a propósito, quem aqui vos fala é o Paulo, e a partir de hoje faço parte da Equipe Pirando no Papiro. Em breve (ou não) vocês vão ver por aqui minhas resenhas sobre games, RPGs, artbooks ou o que mais der na telha. Talvez até outra tentativa de conto… Quem sabe?

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7 comentários em “Conto: Sobre como eu não consigo escrever contos

  1. Mas você já demonstrou nesse texto que pode sim escrever contos. É só identificar os mega clichês e fazer ao contrário, ou tentar pensar em pessoas de verdade. Já eu só sei escrever contos, não consigo pensar em histórias cuja duração passe de um dia, ou até de algumas horas. Quanto ao final, eu penso em todas as coisas mais loucas que poderiam acontecer, e escolho a que tem mais a ver com a história.

    • Obrigado pelo seu comentário! Estava sempre tentando buscar formas de evitar clichês, ou me aproveitar desses clichês para trocá-los de lugar, embaralhá-los em meio ao texto. Mas ultimamente eu tenho buscado escrever esses clichês, porque assim eles saem da cabeça e dão espaço a outras ideias. Na verdade, tenho me dedicado a pensar a narrativa para games, em como os clichês estupidamente clichesosos são mascarados e disfarçados por toda a parte do “meio” da história e pelas intervenções do jogador (ainda que apenas percorra um caminho pré-determinado). E Joseph Campbell tem sido um ótimo objeto de estudo sobre “clichês”, e como o maior deles é inevitável de se fugir: A Jornada do Herói.

      • Eu nunca li Joseph Campbell, mas eu diria que a “jornada do herói” é mais um recurso do que um clichê propriamente. Você conhece o tvtropes.org ? Lá eles listam todos esses padrões, os “tropes” como eles chamam, e mostram que não tem como escrever alguma coisa sem usar um deles, a diferença é só de como você vai usar. Só avisando que é um site extremamente viciante.

      • Jornada do Herói é algo presente em todos os contos mitológicos de praticamente todas as culturas antigas. Concordo que é uma estrutura narrativa e, aproveitando que falamos de Jornada do Herói, dá uma olhada nesse vídeo http://www.youtube.com/watch?v=Hhk4N9A0oCA É sensacional =]
        E não conheço esse tvtropes! Engraçado é que me recomendaram esse site horas atrás, na faculdade, mas ainda não vi. Vou dar uma olhada! (e tentar não me viciar). Obrigado pela indicação!

  2. E não só antigas, das que ainda existem também. Não sei se você já conhece as “Mitológicas” do Levi-Straus, em que ele compila um monte de mitos indígenas e acaba passando pela jornada do herói. E tem outros trabalhos de antropologia que mostram como os mitos vão se reinventando, pra incluir a presença do colonizador branco. É uma coisa muito louca.
    Adorei o vídeo! Tudo o que vem do TED é muito bom 🙂 Agora fiquei com vontade de ler mais a respeito, vou colocar Campbell na minha lista \o/

    • Aqui (http://www.youtube.com/user/KaZeMaRu3100/videos) tem em 6 partes um dvd que o Campbell lançou, chamado “O Poder do Mito”. Consiste de 6 entrevistas em que ele explica diversas coisas que também estão no livro “O Herói de Mil Faces”.
      Pesquisarei esse Levi-Straus! Só conhecia de nome, nunca tinha conhecido nenhum trabalho dele. Isso me lembra que recentemente vi em uma livraria uma série de livros sobre mitologias, cada um sobre uma em específico. Nórdica, Japonesa, Grega, Indiana e africana, não sei se existem mais dessa série.

      E sobre o TED, mais um vídeo que eu gosto muito: http://www.youtube.com/watch?v=ctaPAm14L10

      • Ah, só me corrigindo, faltou um s aí acima, é Levi-Strauss. Odeio escrever em celular. E ele tinha um pensamento interessante, de achar que você chegaria no inconsciente humano, de todos os humanos, estudando os mitos. Hoje não se acredita mais nessas coisas, mas ele fez um grande trabalho catalogando.
        Eu vi esse vídeo do TED ontem! Na verdade fui ver aquele que você mandou e acabei vendo vários, um atrás do outro.
        Vou ver esse “O poder do mito” também. Mitos são sempre um negócio muito legal 🙂

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