Conto: Limbo

“É mais ou menos como o Limbo.

Você já deve ter visto aquele filme do Di Caprio. Aquele, dos sonhos. Pois é, ele existe, o Limbo. Só que em vez de ser a parte mais profunda dos sonhos, do subconsciente das pessoas, na vida real ele é a parte mais obscura dos seus piores pesadelos. E povoado por uns malucos muito conscientes. Bem, depende do que você chama de consciência…

Enfim. É pra lá que eu estou indo esta noite, novamente. Por quê, você me pergunta? Para caçar.

Eu poderia parar, tentar esquecer, viver um pouco fora dele pra variar. Mas não dá pra esquecer. Uma vez que você escolhe a pílula vermelha, não há mais volta. Não há mais a escolha de acordar na sua cama como se tudo tivesse sido um sonho. Ou um pesadelo. Mas no fundo não é só isso. Eu acho que cheguei a um ponto em que preciso estar aqui, eu QUERO estar aqui. A superfície não está preparada ainda pra essas coisas que a gente vê no Limbo. E por mais que isso não soe tão altruísta quanto eu gostaria, me satisfaz saber que eu sou um dos poucos que se importam em tentar limpar um pouco o inferno. Não que estejamos lidando com demônios aqui. Os filhos da puta que eu caço são muito, muito piores que demônios: são seres humanos. O pior tipo de escória que existe nesse mundo. Entende que é muito mais assustador humanos agindo como demônios do que os próprios demônios? Não é à toa que aquela garota do Exorcista dá tanto medo. É lá no Limbo que eles vivem, em suas fortalezas invisíveis – mas não inalcançáveis.

Talvez tenha sido o excesso de gibis de super-heróis. Animes e tal. Acho que esse talvez seja o ponto-fraco de todo nerd, o desejo enrustido de ser um “herói”. Não como o cara retardado de Kick-ass, comprando uma roupa ridícula pela internet e saindo pelas ruas com ela para combater o crime. Mas nós temos nossos meios de fazer alguma diferença (além de não estarmos nem um pouco a fim de sair por aí com um colante entrando na bunda). Ah sim, “nós”. Eu não estou sozinho nessa, ainda bem.

No começo não foi proposital. Nenhum de nós planejou as “caçadas”, pelo menos não do jeito que fazemos hoje. Mas quem anda pelo inferno – pelo Limbo – sem se indignar com o que vê, acaba se tornando um demônio. Quer dizer, eu acho que o cara apenas descobre que sempre foi um. Tá, eu sei que disse antes que eles eram pior que demônios, mas é mais fácil chamá-los assim do que de humanos, porque por mais que eu faça as minhas merdas, não dá pra conceber que um monstro desses seja o mesmo ser humano que eu. E além disso, já é difícil o suficiente identificar os bastardos na “superfície”. No Limbo eles estão em todo o lugar. E nós temos que às vezes nos misturar, para não perder o rastro. Todo cuidado é pouco, mas a adrenalina compensa. Novamente eu deixo o altruísmo escapar nos meus argumentos… Por que no fim das contas o maior motivo é a emoção da caçada. A satisfação de quebrar as fortalezas desses infelizes sem alma, imaginar a cara do maldito, xingando todas as minhas gerações quando percebe que eu – que nós – conseguimos o rastro. “Acabou pra você, seu merda.” Existe recompensa maior que essa aqui no Limbo? Pelo menos pra mim, não. Se isso não é ser herói, eu não sei o que é.

Talvez a coisa toda tenha subido um pouco à cabeça… Talvez. Mas se tem uma coisa que eu deixei pra trás depois de visitar o inferno, foi o excesso de culpa com os meus próprios pecados. Você não tem noção do que a gente encontra por lá. Se você acha que filmes como Jogos Mortais ou O Albergue são só ficção, saiba que você ainda é muito ingênuo quanto ao que existe de realmente grotesco nesse mundo. Saiba que o que você vê no noticiário das 8 é brincadeira de criança perto do que eu já vi no Limbo. Saiba que existe um buraco mais fundo. Muito mais fundo. Não é questão de justificar os erros de uns com outros piores. É questão de perceber o abismo que separa os desesperados e os sem escolha dos doentes sem mãe que fazem o que fazem por diversão, sem um pingo de remorso.

Não sou o dono da razão, ok? Longe disso. Pena de morte? Prisão? Mesma moeda? Não penso muito nessas coisas. Quem sou eu pra julgar os pecados da humanidade? Não sou nenhum Deus pra dizer o que eles merecem ou não. Minha única certeza é que ninguém merece esbarrar com um cara desses na vida. O que esses filhos da puta fazem não pode ficar por isso mesmo, perdido no desconhecido, impune e invisível, no Limbo.

E é pra lá que eu vou agora, saborear minha pílula vermelha, ser um herói, caçar. Minhas armas? Uma xícara de café, um sanduíche, alguns anos de experiência e cuidado, muito cuidado.

Afinal, é o inferno. O inferno de verdade, o inferno da verdade, está bem aqui na Terra. E ele se chama Deep Web.”

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O que é a Deep Web?

O conteúdo da internet ao qual temos acesso é muito limitado, tal qual um iceberg: onde a superfície corresponde a apenas uma pequena porcentagem de seu total. A Deep Web é o que está submerso, escondido por senhas, scripts e protocolos, e não pode ser acessado por mecanismos de busca padrão, correspondendo a aproximadamente 75% do conteúdo atual da internet. Devido ao anonimato e possibilidade de burlar censuras em certos países, a Deep Web é utilizada por grupos neo-nazistas e outras organizações racistas e extremistas, grupos religiosos e seitas, pedófilos, sádicos, praticantes de canibalismo, e “comerciantes” de todo o tipo de coisa (e de pessoas, e de pessoas transformadas em coisas) que você possa (ou não possa) imaginar. Tanto o FBI quanto polícias de outros países monitoram (ou pelo menos tentam monitorar) a Deep Web todos os dias em busca desse tipo de criminoso, mas é muito difícil chegar de fato até eles. Porém, existem também os “hackers do bem”. Recentemente o grupo Anonymous derrubou dois grandes sites de pedofilia da Deep Web, entregando à polícia o IP de cerca de 1600 usuários.

** Atenção: Isso é um conto de ficção, eu nunca acessei a Deep Web e nem pretendo, e também não aconselho ninguém a tentar. Sem as devidas precauções, você pode ter informações pessoais roubadas do seu computador e seu IP rastreado. Além disso, imagens e vídeos que você preferiria não ver podem aparecer a qualquer momento.

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2 comentários em “Conto: Limbo

  1. Você conseguiu externalizar exatamente o que sinto quando me deparo com essas tremendas injustiças na web, como pedofilia e o que eu adoraria fazer. Parabéns pela sua sensibilidade =)

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