Imperfeições

“Tonio nasceu no norte da Alemanha, numa cidade em que todos tem os olhos azuis, são loiros, saudáveis e fortes e estão de bem com o mundo. A mãe de Tonio era italiana, […] o próprio nome já indica a mistura que ele tem. Seus olhos e cabelos são escuros e ele herdou uma sensibilidade inquieta que lhe dá o potencial de artista e escritor.

Embora seja devotado àquela gente loira, ele não pode interagir; está sempre na posição do observador. No entanto, Tonio reconhece que essas pessoas são fascinantes. Quando vai a bailes, é uma maravilha observá-las. As meninas dançam muito bem; os meninos dançam muito bem. E quando ele, Tonio, dança, ele pensa: “Eu só quero sonhar e ela só quer dançar”. […] Assim, ele se sente excluído.

Quando cresce um pouco, ele decide ser artista; irá embora dali; irá para outro mundo. Então vai para o sul, provavelmente Munique, e começa a participar de uma sociedade boêmia. E lá conhece pessoas que tem grandes ideias de como a vida deveria ser. Além disso, elas tem uma fala crítica incrível, com a qual desvalorizam tudo que vai bem no mundo.

São pessoas que tem diversas ideias e acham que o mundo não está à altura dessas ideias, pessoas que contiveram sua projeção, seu amor pelo mundo, e se desiludiram com ele. São frias, desdenhosas, céticas.

Tonio percebe que isso também não lhe serve. Ele é um intelectual, respeita ideias, mas gosta mesmo é daquelas loiras de olhos azuis.

Ele é um jovem que está empacado entre dois mundos: o dos empreendedores sem imaginação em que ele nasceu e o dos críticos intelectuais boêmios com quem tem andado. Ele acaba por descobrir que todos os que vivem no mundo são imperfeitos, e é essa imperfeição que os mantém aqui.

Ele percebe que nada que é vivo satisfaz o ideal. Para se descrever a pessoa como artista, deve-se descrevê-la com uma objetividade impiedosa. As imperfeições é que lhe dão identidade. As imperfeições é que pedem o nosso amor.”

(Retirado do livro Mito e Transformação, de Joseph Campbell,

onde ele fala sobre o livro Tonio Kröger, de Thomas Mann)

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