Vendas

Ouvi essa história durante a preparação para uma vaga de vendedor publicitário em uma editora.

O nosso gerente era um simpático profissional, de uma felicidade doce, densa e enjoativa como xarope pra tosse. Claro, o trabalho no ramo envolve muito mais frustrações que recompensas, então o cara transformou os treinamentos de novos empregados em sessões de autoajuda pontuados por piadas no pior estilo stand up.

Segundo ele, a empresa não vendia só espaços publicitários para pequenos comerciantes, vendia margens de crescimento! As vantagens? Não são indefinidas, mas sim inimagináveis! Oportunidade? Essa é única! Você nunca mais a verá passar! Mas quem sabe eu consiga segurar o preço até amanhã?

“Acorde todo dia com a mesma vontade de trabalhar! Acene para todos no caminho, encare as desventuras com bom humor e nunca, mas nunca deixe de sorrir!”

Ele tinha um chicote esporado com o qual dominava as palavras feito a um bando de ovelhas tremeliquentas. Não sei se era um talento ou uma habilidade adquirida, mas costumava ganhar uma grana extra dando palestras em companhias, simpósios e clubes. Acostumado a ter a plateia na ponta dos dedos, sempre observando as reações e o feeling do público como um bom comediante faria, certo dia percebeu um homem sério que o assistia da primeira fila. O auditório estava lotado e as gargalhadas subiam pelo ar em ondas violentas como o mar de ressaca. O mesmo homem escutava atento a todas as anedotas; fazia anotações vez ou outra e concordava elegantemente com a cabeça. Porém, seu semblante não deixava passar qualquer expressão mais descontraída que fosse. Isso feriu o orgulho do nosso querido gerente que recebeu de si próprio a pequena missão de tirar o tal moço de seu absurdo estado de seriedade.

Vendedores tem de ser insistentes, não? Você pode ser um insistente chato ou um insistente engraçado. O mesmo vale para conquistar mulheres.

“Alguma vez você já se viu querendo ficar com aquela mulher esnobe só porque ela era difícil?”

O gerente, como bom conquistador, olha nos olhos do homem sério.

“Claro que você pode ficar em cima dela, rodeando que nem um urubu na carniça, esperando um momento de carência; ou você pode escutá-la, ser simpático e divertido. Faça uma mulher rir e ela abre uma brecha.”

Nosso gerente aponta para a vítima na primeira fila, na sua fortaleza de rigidez.

“Como você acha que homens feios que nem eu conseguem se reproduzir?”

Todos se rendem. O gerente observa orgulhoso sua missão cumprida, mas não passa muito até que ele percebe. Constrangido, o homem não mais tão sério se retorce na cadeira com as mãos sobre a boca. Tenta esconder, entre uma convulsão e outra de risos, a janelinha escura nos dentes da frente.

A lição para o gerente poderia ter sido: “não force todos aos seus imperativos, sabemos pouco da nossa vida, menos ainda da vida dos outros.”. Mas claro, ele era um vendedor, então a lição que ele decidiu buscar foi outra: “Eu sou muito bom no que faço”.

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