Vendas

Ouvi essa história durante a preparação para uma vaga de vendedor publicitário em uma editora.

O nosso gerente era um simpático profissional, de uma felicidade doce, densa e enjoativa como xarope pra tosse. Claro, o trabalho no ramo envolve muito mais frustrações que recompensas, então o cara transformou os treinamentos de novos empregados em sessões de autoajuda pontuados por piadas no pior estilo stand up.

Segundo ele, a empresa não vendia só espaços publicitários para pequenos comerciantes, vendia margens de crescimento! As vantagens? Não são indefinidas, mas sim inimagináveis! Oportunidade? Essa é única! Você nunca mais a verá passar! Mas quem sabe eu consiga segurar o preço até amanhã?

“Acorde todo dia com a mesma vontade de trabalhar! Acene para todos no caminho, encare as desventuras com bom humor e nunca, mas nunca deixe de sorrir!”

Ele tinha um chicote esporado com o qual dominava as palavras feito a um bando de ovelhas tremeliquentas. Não sei se era um talento ou uma habilidade adquirida, mas costumava ganhar uma grana extra dando palestras em companhias, simpósios e clubes. Acostumado a ter a plateia na ponta dos dedos, sempre observando as reações e o feeling do público como um bom comediante faria, certo dia percebeu um homem sério que o assistia da primeira fila. O auditório estava lotado e as gargalhadas subiam pelo ar em ondas violentas como o mar de ressaca. O mesmo homem escutava atento a todas as anedotas; fazia anotações vez ou outra e concordava elegantemente com a cabeça. Porém, seu semblante não deixava passar qualquer expressão mais descontraída que fosse. Isso feriu o orgulho do nosso querido gerente que recebeu de si próprio a pequena missão de tirar o tal moço de seu absurdo estado de seriedade. Continuar lendo

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Conto: Joana matou 1000 Dragões

Aqui é a Tábata e esse é o primeiro conto que publico, mas não é o primeiro que escrevo. É o primeiro de uma série, mas com certeza não é o melhor.
Ele foi escrito no final do Ano do Dragão, o signo chinês que rege meu ano de nascimento. Acreditem ou não nesse tipo de coisa, o Dragão é um símbolo muito poderoso, e sinto que esse conto representa o primeiro dos meus 1000 Dragões.

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Joana matou 1000 dragões, ela me disse. A meia noite se rompeu e ela atravessou o espelho, sem nem eu precisar chamar. No ponto em que as horas se desamontoam, Joana vem me contar como decepa a cabeça de seus rivais. Traz em seu pescoço um colar com 1000 dentes.

– A experiência pesa. – Ela filosofa enquanto senta na beirada da minha cama. Realmente, o peso de sua armadura e das presas em seu pescoço faz ranger dolorosamente os estrados do meu leito. Os lençóis se retorcem e repuxam agarrados em desespero ao meu colchão. Os cabelos são uma cascata negra que serpenteia nos joelhos e desemboca em seus calcanhares. Pende da nuca em ondas revoltosas. Quase posso ver o vento estapeando os fios pesados, com ímpeto, depois com cansaço. Posso ver os movimentos, magicamente, mesmo com a janela fechada. Continuar lendo

Hora de Resenha: Adventure Time!

Você já se pegou assistindo esses novos desenhos que são transmitidos pela Cartoon Network ou pela Nickelodeon e pensando “Mas que coisa horrível, que traço preguiçoso e roteiro fumado!” ? Já se pegou pensando que o ritmo desses novos cartoons são estranhos, rápidos demais e as vezes incompreensíveis?

Isso quer dizer que você está velho que nem eu e guarda uma nostalgia característica da nossa idade em relação à própria infância, recheada de programas e desenhos infantis do SBT, Globo e da extinta TV Manchete. Se você começa assistindo um episódio qualquer de Adventure Time, animação da Cartoon Network, pode, em primeiro momento, acreditar que se trata de mais um desses desenhos epilépticos feito para hipnotizar crianças incautas. Vou confessar que o primeiro aspecto dessa animação que me lançou o anzol foram as cores, sempre muito bonitas em todos os episódios, e o traço fofinho; a forma como os olhos dos personagens cresciam e brilhavam de acordo com suas emoções ( em anime mode). Se pararmos para pensar, é isso que chama atenção das crianças em primeiro momento.

A partir daí comecei a assistir um episódio aleatório numa tarde de domingo. Estava esperando algo como “Phineas e Pherb” ou “The Amazing World of Gumball” (que não é tão amazing assim) – humor físico, pastelão, infantil e morno para as audiências mais velhas, presença hoje e sempre em animações voltadas para crianças.  Antes mesmo disso, tudo que eu havia visto da série eram fanarts, montagens no Facebook e crossovers com outras histórias fictícias (de todas as mídias) utilizando os traços de Adventure Time; afinal de contas a animação caiu nas vantagens e desvantagens do hype. Como sou uma pessoa que se interessa minimamente por cultura pop, e gosto de saber se o hype em cima de qualquer produção cultural é procedente (afinal, posso estar perdendo alguma coisa muito boa!), decidi que deveria checar se Adventure Time poderia me surpreender. Continuar lendo