Vendas

Ouvi essa história durante a preparação para uma vaga de vendedor publicitário em uma editora.

O nosso gerente era um simpático profissional, de uma felicidade doce, densa e enjoativa como xarope pra tosse. Claro, o trabalho no ramo envolve muito mais frustrações que recompensas, então o cara transformou os treinamentos de novos empregados em sessões de autoajuda pontuados por piadas no pior estilo stand up.

Segundo ele, a empresa não vendia só espaços publicitários para pequenos comerciantes, vendia margens de crescimento! As vantagens? Não são indefinidas, mas sim inimagináveis! Oportunidade? Essa é única! Você nunca mais a verá passar! Mas quem sabe eu consiga segurar o preço até amanhã?

“Acorde todo dia com a mesma vontade de trabalhar! Acene para todos no caminho, encare as desventuras com bom humor e nunca, mas nunca deixe de sorrir!”

Ele tinha um chicote esporado com o qual dominava as palavras feito a um bando de ovelhas tremeliquentas. Não sei se era um talento ou uma habilidade adquirida, mas costumava ganhar uma grana extra dando palestras em companhias, simpósios e clubes. Acostumado a ter a plateia na ponta dos dedos, sempre observando as reações e o feeling do público como um bom comediante faria, certo dia percebeu um homem sério que o assistia da primeira fila. O auditório estava lotado e as gargalhadas subiam pelo ar em ondas violentas como o mar de ressaca. O mesmo homem escutava atento a todas as anedotas; fazia anotações vez ou outra e concordava elegantemente com a cabeça. Porém, seu semblante não deixava passar qualquer expressão mais descontraída que fosse. Isso feriu o orgulho do nosso querido gerente que recebeu de si próprio a pequena missão de tirar o tal moço de seu absurdo estado de seriedade. Continuar lendo

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Conto: Limbo

“É mais ou menos como o Limbo.

Você já deve ter visto aquele filme do Di Caprio. Aquele, dos sonhos. Pois é, ele existe, o Limbo. Só que em vez de ser a parte mais profunda dos sonhos, do subconsciente das pessoas, na vida real ele é a parte mais obscura dos seus piores pesadelos. E povoado por uns malucos muito conscientes. Bem, depende do que você chama de consciência…

Enfim. É pra lá que eu estou indo esta noite, novamente. Por quê, você me pergunta? Para caçar.

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A Ordem do Brilho

Tenho um amigo do qual amo tudo o que ele escreve. Pra falar a verdade tem alguns anos que não leio nada dele, e uns bons meses que não o vejo. Mas esses dias lembrei de um texto dele que eu gosto muito até hoje. Pedi permissão pra postar, e aí está. Enjoy! Continuar lendo

Conto: Sobre como eu não consigo escrever contos

“Era uma noite escura e tempestuosa”

Não, muito clichê. Idiota, até. É como se só existissem noites escuras e tempestuosas para se começar uma história. Fala sério, não vivemos no ambiente da trilogia Matrix.

“O casal se encontrou em uma manhã ensolarada de verão e…”

Lá vou eu de novo, mergulhando fundo em clichês. Aposto que daqui a pouco falarei de uma princesa que é salva de um dragão por um bravo e galante cavaleiro.

“A chuva caía torrencialmente quando ele a vislumbrou: linda, até mesmo encharcada pela tempestade. Ainda mais linda quando xingava tudo à sua volta após o guarda-chuva quebrar. Decidiu ir até ela, era uma chance que não podia se dar ao luxo de perder. Ao se aproximar…” Continuar lendo

Conto: Para sempre

– Alô. Julio…? É a Duda. Tudo bem? – ela falou, como se tivéssemos nos visto ontem.

Foi uma boa surpresa, claro. Mas ainda assim, uma surpresa. Dessas que te pegam desprevenido. “Há quanto tempo!”, eu disse, claro. Tão clichê que eu não pude evitar.

O resto da curta conversa me levou a estar aqui, em meio a estes balões cor-de-rosa e decoração da Hello Kitty. No bolo, uma vela em forma de “5”.

Gustavo, o meu filho de seis anos, já fez amigos e está correndo pela casa, como se fosse dele. Invejo-o por conseguir se sentir tão à vontade aqui, quando eu gostaria muito de pelo menos um pingo dessa naturalidade.

Nós chegamos há apenas alguns minutos atrás. Eu sabia que vir até aqui talvez mexesse comigo, mas não imaginei que sentiria tal tontura e nostalgia ao vê-la. O  rosto sorridente. O cabelo castanho claro, ligeiramente mais curto que antigamente. Uma ruga aqui e ali. As mãos delicadas pousando sobre a grande barriga de sete meses.

“É um menino dessa vez”, ela disse. “Entrem”, ela disse. O que me fez lembrar que a minha esposa estava bem ali, do meu lado. Será que eu deveria ter contado à Clara que Duda era uma ex? Não. E ela não era “só” uma ex, também. Me senti subitamente mal, não tanto pela culpa do segredo, mas por ter pensado por um segundo em Duda com uma palavra tão banal de duas letras. Continuar lendo

Conto: Joana matou 1000 Dragões

Aqui é a Tábata e esse é o primeiro conto que publico, mas não é o primeiro que escrevo. É o primeiro de uma série, mas com certeza não é o melhor.
Ele foi escrito no final do Ano do Dragão, o signo chinês que rege meu ano de nascimento. Acreditem ou não nesse tipo de coisa, o Dragão é um símbolo muito poderoso, e sinto que esse conto representa o primeiro dos meus 1000 Dragões.

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Joana matou 1000 dragões, ela me disse. A meia noite se rompeu e ela atravessou o espelho, sem nem eu precisar chamar. No ponto em que as horas se desamontoam, Joana vem me contar como decepa a cabeça de seus rivais. Traz em seu pescoço um colar com 1000 dentes.

– A experiência pesa. – Ela filosofa enquanto senta na beirada da minha cama. Realmente, o peso de sua armadura e das presas em seu pescoço faz ranger dolorosamente os estrados do meu leito. Os lençóis se retorcem e repuxam agarrados em desespero ao meu colchão. Os cabelos são uma cascata negra que serpenteia nos joelhos e desemboca em seus calcanhares. Pende da nuca em ondas revoltosas. Quase posso ver o vento estapeando os fios pesados, com ímpeto, depois com cansaço. Posso ver os movimentos, magicamente, mesmo com a janela fechada. Continuar lendo

Conto: Olhe para cima

– Já reparou que as gaivotas parecem estar paradas no ar, quando planam? – disse Paulo.

Julia ficou furiosa.

– Você não ouviu uma palavra do que eu disse, não é?

Nesse momento o ônibus deu uma desacelerada brusca, provavelmente por causa de algum apressado que resolveu cortar sem ligar a seta. O tranco arrancou um palavrão de Julia, em decibéis um pouco mais altos do que deveriam. Paulo achou graça na forma como ela ruborizou, e tentou não deixá-la ainda mais sem graça retomando o assunto:

– Desculpe, é que é um fenômeno muito interessante… – ele tentou dizer.

– E os problemas acadêmicos da sua namorada não são importantes?

– Me desculpe. – Ele repetiu, dando um sorriso sereno. O de sempre. – Continue.

– Ah, esquece. – Julia bufou. Continuar lendo

Conto: Últimos minutos

O relógio na parede do restaurante marcava 13 horas e 38 minutos. O ponteiro dos segundos seguia adiante com seus tiques, impiedosos. O tempo passava, e se esgotava.

Será que ela viria mesmo? Ele estava inquieto, sentado em um balcão e segurando um copo de uísque, enquanto seus olhos continuavam se movendo do relógio de pulso à entrada. Uma maleta marrom simples, única bagagem que trouxera consigo, se postava ao seu lado no chão. Não que ele fosse precisar de mais do que estava ali.

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Conto: Azul

Todos sabem que Verdades são verdes e Mentiras são vermelhas.

A menina sabia. Sabia também que queria uma Verdade. Queria muito.

A Vida também sabia o que ela queria. Por isso levou-a àquela porta. Àquele comprido corredor. Continuar lendo

Conto: Em busca de um sentido

” […]
– Então você nunca parou para pensar que talvez nada disso valha a pena? – disse Roger, levando um grande gole de cerveja à boca.
– Valha a pena para quem? Para você? – rebateu calmamente o outro homem. Seus olhos muito verdes brilhavam sob as pálpebras que já começavam a não obedecer. Seu nome era Simon, e neste momento estava mais preocupado em lembrar se esta era sua nona ou décima caneca do que em prestar atenção nas indagações do velho Roger.
– Se vale a pena para todos! Ora bolas! Se pensar bem, não vale a pena nem questionar se realmente vale ou não. Porque se não vale a pena, vale menos ainda pensar se vale. Não é? – Roger soltou um arroto que não só tirou toda a solenidade do que acabara de falar com intensidade religiosa, como também fez com que a garçonete loira que enxugava um copo atrás do balcão desejasse não ter parado para prestar atenção na conversa dos dois amigos. Enquanto Simon já puxava uma sacolinha de couro do bolso, contando quantas moedas de ouro lhe restavam.
– Mas e se valer? Se for assim, também vale questionar se vale. Afinal, uma vez entendendo que vale a pena pode-se ter certeza de continuar.
– Se, se, se… Não me venha com essa! Se “se’s” valessem a pena e certezas existissem, em primeiro lugar, não beberíamos como porcos para fugir das nossas vidas miseráveis.
– Pelo contrário, meu amigo. Bebemos justamente para que os “se’s” se tornem mais reais. Há dez canecas atrás a vida com certeza não era tão colorida quanto me parece agora. Nem meus objetivos tão próximos.