Review: Livro "Changi" – James Clavell

Se você procurar em qualquer sebo do Rio de Janeiro, provavelmente encontrará algum dos (poucos, infelizmente) livros do James Clavell. Apesar de todos os livros do autor terem sido best sellers aclamados no mundo inteiro, poucas pessoas hoje em dia conhecem sua obra. Só conheço uma pessoa que se tornou fã dele sem ser através de indicação minha: o meu amigo Gabriel, que me recomendou o Xógum – livro mais famoso do Clavell.

Acontece que as capas das publicações brasileiras são bem feias mesmo, não dá muita vontade de ler olhando pra elas. Eu li porque, além do meu amigo ter me indicado, me interessei pela menção que o prefácio de Musashi (do Eiji Yoshikawa) faz, explicando a ligação histórica entre uma obra e a outra. Como eu nem gosto (pouco) de ficção histórica, não demorou muito para que eu me apaixonasse pelo Clavell e seus personagens tão humanos, tão reais, tão sagazes e tão sem escrúpulos. As capas feias se tornam completamente irrelevantes. (Me dá uma tristeza quando recomendo um livro dele e as pessoas torcem o nariz.)

Sobre o autor
Charles Edmund Dumaresq Clavell se dizia um “inglês meio irlandês e americano, nascido na Austrália mas cidadão dos EUA e com residência ora na Califórnia, ora em Londres”. Ele serviu durante a Segunda Guerra Mundial, pela Inglaterra. Foi capturado na Ilha de Java e preso no campo de concentração japonês Changi. Essa experiência influenciou tudo o que o autor veio a escrever a seguir, principalmente o livro Changi (“King Rat”, no original), que mostra com riqueza de detalhes as condições miseráveis e a completa ausência de dignidade daqueles que lá ficaram presos. Apesar de ter estado em Changi e de fazer várias referências (como por exemplo à ilha de Java, onde foi capturado), Changi é um livro de ficção assim como todos os outros do autor. Mesmo quando menciona figuras famosas como Tokugawa Ieyasu (que tomou o poder do Japão em 1600, dando início ao Xogunato), que em Xógum se chama Toranaga, ele usa de uma licença poética bem única na construção de suas histórias.
O que torna a imersão no universo oriental pelos olhos de Clavell tão excitante é o fato de que ele sempre ilustra esse mundo através de olhos ocidentais – e vice versa. O contraste entre as culturas se mistura às tramas inteligentíssimas e personagens que nos fazem duvidar de que tudo é apenas ficção, tornando Clavell (pelo menos na minha opinião) um grande mestre da ficção histórica.

James Clavell morreu de câncer em 1994 aos 69 anos, um ano depois de ter publicado seu sexto e último livro, Gai-jin.

Sobre Changi (“King Rat”)

O cenário é a Segunda Guerra Mundial. Os personagens são ingleses, australianos, americanos… Soldados e oficiais, todos presos no campo de concentração japonês conhecido como Changi – uma grande prisão cercada por arames farpados cuja fuga seria bem fácil, mas uma vez fora, pra onde ir? A casa de todos ali estava muito longe, e tudo o que lhes restava era esperar pelo fim da guerra.

 Em meio à miséria em que eles se encontravam, com escassez de comida, de remédios, de roupas e de dignidade, entre aqueles homens raquíticos no limiar entre a vida e a morte, existia o Rei. Ele era o único que tinha roupas, o único que tinha tabaco, o único que comia bem e o único que parecia realmente vivo em meio àquele monte de zumbis. Mas por quê? Por que ele tinha tanto enquanto todos os outros tinham tão pouco? É isso que o major Grey se pergunta no primeiro capítulo do livro, logo após jurar acabar com o Rei nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.

O livro é, acima de tudo, um retrato dos limites dos seres humanos e do que são capazes para sobreviver. É a eterna questão: “até onde vai a sua força de caráter quando se trata de sobrevivência?”. Isso é representado muito bem no contraste gerado pela amizade entre o Rei e Peter Marlowe (personagem que na minha opinião representa o próprio Clavell, por ser inglês e por também ter sido capturado em Java).

O “Rei”
King é um cabo americano de 25 anos, um dos vinte e cinco soldados da América presos em Changi. Apesar de o comércio ser proibido dentro da prisão, ele sempre tem roupas limpas para usar, sempre come melhor que os outros, sempre tem algum dinheiro. Sua desculpa? “Ganhei no pôquer”. Entre outras artimanhas, para driblar os oficiais que tentavam comprometê-lo. Por meio de muita astúcia, o Rei realiza transações comprando e revendendo objetos de valor dos soldados e comercializando com os japoneses e habitantes da ilha. Pra ele o que vale é a lei do “mais forte”. Ali em Changi, quem aprende a se adaptar é Rei – um rei entre os ratos, como sugere o título original.

Peter Marlowe
Peter é um jovem capitão inglês e piloto de caça  de apenas 24 anos, que caiu em Java e viveu algum tempo em uma aldeia antes de ser capturado pelos japoneses. As habilidades de Marlowe em linguagem, inteligência, honestidade e personalidade levam o Rei a tentar envolvê-lo em seus negócios no mercado negro de Changi. Apesar das diferenças, ambos se tornam amigos e a história se desenrola em torno do receio de Peter em se corromper. Se ele ficar do lado do Rei, terá muitos benefícios (entre eles, voltar à Java para ver a garota por quem se apaixonou), mas vale a pena vender sua alma para sobreviver?

A trama
Os dois acabam chamando a atenção de Robin Grey, oficial britânico que tenta manter a disciplina militar rigorosa entre os presos e vê o Rei como a antítese de tudo o que ele acredita. É engraçado que o mais natural é o leitor odiar Grey, por ser um antagonista que sempre está no pé do Rei, sendo que é ele quem está certo. É ele quem está sendo honesto e não admite o modo como ele sempre consegue o que quer de formas ilícitas.
Em meio à roubos (de muitos prisioneiros) e mercado negro (da parte do Rei) vemos outras demonstrações de honestidade e força de caráter, como dos soldados que arriscam ser pegos pelos japoneses para operar o único rádio da prisão – única janela entre eles e o mundo exterior.

Concluindo
Changi é uma história que te faz rir, se emocionar, se agoniar e refletir sobre si mesmo. Na mesma situação, você sobreviveria? Manteria seus princípios? Ou o que vale é a lei do mais forte, a lei da sobrevivência? Qual o limite entre homens e ratos?

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