Conto: Para sempre

– Alô. Julio…? É a Duda. Tudo bem? – ela falou, como se tivéssemos nos visto ontem.

Foi uma boa surpresa, claro. Mas ainda assim, uma surpresa. Dessas que te pegam desprevenido. “Há quanto tempo!”, eu disse, claro. Tão clichê que eu não pude evitar.

O resto da curta conversa me levou a estar aqui, em meio a estes balões cor-de-rosa e decoração da Hello Kitty. No bolo, uma vela em forma de “5”.

Gustavo, o meu filho de seis anos, já fez amigos e está correndo pela casa, como se fosse dele. Invejo-o por conseguir se sentir tão à vontade aqui, quando eu gostaria muito de pelo menos um pingo dessa naturalidade.

Nós chegamos há apenas alguns minutos atrás. Eu sabia que vir até aqui talvez mexesse comigo, mas não imaginei que sentiria tal tontura e nostalgia ao vê-la. O  rosto sorridente. O cabelo castanho claro, ligeiramente mais curto que antigamente. Uma ruga aqui e ali. As mãos delicadas pousando sobre a grande barriga de sete meses.

“É um menino dessa vez”, ela disse. “Entrem”, ela disse. O que me fez lembrar que a minha esposa estava bem ali, do meu lado. Será que eu deveria ter contado à Clara que Duda era uma ex? Não. E ela não era “só” uma ex, também. Me senti subitamente mal, não tanto pela culpa do segredo, mas por ter pensado por um segundo em Duda com uma palavra tão banal de duas letras. Continuar lendo

Conto: Joana matou 1000 Dragões

Aqui é a Tábata e esse é o primeiro conto que publico, mas não é o primeiro que escrevo. É o primeiro de uma série, mas com certeza não é o melhor.
Ele foi escrito no final do Ano do Dragão, o signo chinês que rege meu ano de nascimento. Acreditem ou não nesse tipo de coisa, o Dragão é um símbolo muito poderoso, e sinto que esse conto representa o primeiro dos meus 1000 Dragões.

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Joana matou 1000 dragões, ela me disse. A meia noite se rompeu e ela atravessou o espelho, sem nem eu precisar chamar. No ponto em que as horas se desamontoam, Joana vem me contar como decepa a cabeça de seus rivais. Traz em seu pescoço um colar com 1000 dentes.

– A experiência pesa. – Ela filosofa enquanto senta na beirada da minha cama. Realmente, o peso de sua armadura e das presas em seu pescoço faz ranger dolorosamente os estrados do meu leito. Os lençóis se retorcem e repuxam agarrados em desespero ao meu colchão. Os cabelos são uma cascata negra que serpenteia nos joelhos e desemboca em seus calcanhares. Pende da nuca em ondas revoltosas. Quase posso ver o vento estapeando os fios pesados, com ímpeto, depois com cansaço. Posso ver os movimentos, magicamente, mesmo com a janela fechada. Continuar lendo

Conto: Olhe para cima

– Já reparou que as gaivotas parecem estar paradas no ar, quando planam? – disse Paulo.

Julia ficou furiosa.

– Você não ouviu uma palavra do que eu disse, não é?

Nesse momento o ônibus deu uma desacelerada brusca, provavelmente por causa de algum apressado que resolveu cortar sem ligar a seta. O tranco arrancou um palavrão de Julia, em decibéis um pouco mais altos do que deveriam. Paulo achou graça na forma como ela ruborizou, e tentou não deixá-la ainda mais sem graça retomando o assunto:

– Desculpe, é que é um fenômeno muito interessante… – ele tentou dizer.

– E os problemas acadêmicos da sua namorada não são importantes?

– Me desculpe. – Ele repetiu, dando um sorriso sereno. O de sempre. – Continue.

– Ah, esquece. – Julia bufou. Continuar lendo

Conto: Últimos minutos

O relógio na parede do restaurante marcava 13 horas e 38 minutos. O ponteiro dos segundos seguia adiante com seus tiques, impiedosos. O tempo passava, e se esgotava.

Será que ela viria mesmo? Ele estava inquieto, sentado em um balcão e segurando um copo de uísque, enquanto seus olhos continuavam se movendo do relógio de pulso à entrada. Uma maleta marrom simples, única bagagem que trouxera consigo, se postava ao seu lado no chão. Não que ele fosse precisar de mais do que estava ali.

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