Conto: Azul

Todos sabem que Verdades são verdes e Mentiras são vermelhas.

A menina sabia. Sabia também que queria uma Verdade. Queria muito.

A Vida também sabia o que ela queria. Por isso levou-a àquela porta. Àquele comprido corredor. Continuar lendo

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Conto: Em busca de um sentido

” […]
– Então você nunca parou para pensar que talvez nada disso valha a pena? – disse Roger, levando um grande gole de cerveja à boca.
– Valha a pena para quem? Para você? – rebateu calmamente o outro homem. Seus olhos muito verdes brilhavam sob as pálpebras que já começavam a não obedecer. Seu nome era Simon, e neste momento estava mais preocupado em lembrar se esta era sua nona ou décima caneca do que em prestar atenção nas indagações do velho Roger.
– Se vale a pena para todos! Ora bolas! Se pensar bem, não vale a pena nem questionar se realmente vale ou não. Porque se não vale a pena, vale menos ainda pensar se vale. Não é? – Roger soltou um arroto que não só tirou toda a solenidade do que acabara de falar com intensidade religiosa, como também fez com que a garçonete loira que enxugava um copo atrás do balcão desejasse não ter parado para prestar atenção na conversa dos dois amigos. Enquanto Simon já puxava uma sacolinha de couro do bolso, contando quantas moedas de ouro lhe restavam.
– Mas e se valer? Se for assim, também vale questionar se vale. Afinal, uma vez entendendo que vale a pena pode-se ter certeza de continuar.
– Se, se, se… Não me venha com essa! Se “se’s” valessem a pena e certezas existissem, em primeiro lugar, não beberíamos como porcos para fugir das nossas vidas miseráveis.
– Pelo contrário, meu amigo. Bebemos justamente para que os “se’s” se tornem mais reais. Há dez canecas atrás a vida com certeza não era tão colorida quanto me parece agora. Nem meus objetivos tão próximos.

Mais uma história inacabada

2019
Carlos tinha 18 anos quando tudo começou. Flashes. Pareciam sonhos que vinham quando ele estava acordado. O primeiro foi na fila de um Mac Donald’s. Num instante olhava para a entediada funcionária que chamava o próximo da fila e dois segundos depois um turbilhão de lembranças de coisas que nunca haviam acontecido invadiram sua mente.
Um tombo de bicicleta que gerou um corte profundo na coxa esquerda.
Uma festa de graduação, pessoas felizes com seus diplomas em rolinhos.
Um pai sério e reservado, uma mãe exigente que, pelo menos desta vez olhava para ele com orgulho e não com reprovação. Pais cheios de defeitos, mas que ele amava. Como isso podia acontecer? Aqueles não eram seus pais.
“Sim, eles eram”.

Conto: Chuvas de março

A chuva sempre esteve lá, testemunhando cada momento.

Desde o início. Desde o primeiro dia em que eu a vi.
Desde o fim de fevereiro a chuva não dava descanso pra ninguém. Peguei meu carro naquela segunda feira, início de março, em direção ao meu novo emprego temporário.